“Cala a boca, porra!”; ou, o rei Carlos, do Brasil.

Agora foi Roberto Carlos, o outro rei, a exasperar-se e dizer a um interlocutor recalcitrante “¿Por qué no te callas?”. Justo. Afinal, o que se pode fazer senão mandar calar aqueles que não deixam falar aos outros?

Lendo sobre o caso, lembrei de um espetáculo no saudoso teatro Cultura Artística, onde o violinista italiano Giuliano Carmignola realizava, com seu conjunto, leituras entusiásticas de peças Vivaldi. Alguns solos eram tão brilhantes e cheios de virtuosismo que lamentei, por várias vezes durante a performance, termos perdido nas salas de concerto a prática de aplausos durante peças – de fato, naquele evento ficou claro para mim que o fórum para o qual compunha o compositor veneziano estava mais próximo da sensibilidade dos clubes de jazz, com um diálogo entusiasmado entre palco e platéia, do que da rotina “eclesial” e silenciosa com que costumamos ouvir, hoje em dia, música clássica.

Mas errei na analogia. O rei Roberto calou um meliante de outra estirpe, o sujeito que quer impor um diálogo inoportuno, desejoso de elevar-se, tornar-se notável para o palco e, assim, distinguir-se entre os “comuns” da platéia. É um tipo de psiquê não raro no mundo de deseducados em que vivemos. De qualquer modo, se precisasse fazer um paralelo entre os amigos da música clássica, seria mais apropriado relacionar o caso “Roberto Carlos” aos que aplaudem ruidosamente depois de adágios introspectivos. Esses, como aquele, justificam-se apenas para demonstrar a si e aos outros que sabem mais – e sabendo mais, tornam-se diferentes, melhores…

Nesses casos, “cala a boca, porra!” (pianinho, quando o idiota está na cadeira ao lado) é uma opção elegante que, também no clássico, podemos cultivar.

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