Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

“Echo”, de Richard Serra

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Com gigantismo ampliado pelas dimensões estritas do espaço para onde foi realizado, “Echo” (2019) é um esforço de precisão e efeito de um dos mais importantes artistas de nosso tempo, o norte-americano Richard Serra. Precisão, pois a dimensão extraordinária é apenas superficialmente confundida com monstruosidade; efeito, pois a obra implica de modo direto o corpo do público e sua relação com o espaço. Magistral.

Composto por duas placas de aço de 18,6m de altura, cada uma pesando 70,5 toneladas, “Echo” se localiza ao fundo do edifício envidraçado do Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista em São Paulo. Num espaço de solo e paredes escuras, erguem-se como maciços monolitos kubrickianos, peças escuras a desvelar não a ratio ou alguma inteligência superior prevista por Arthur Clark, mas outra: o céu com movimento das nuvens, pequenos jogos de luz e sombra, a imponente e aparentemente caótica configuração de prédios do entorno – elementos cujas falsas assimetrias acabam por receberem contornos de angulações peculiares conforme o olhar e o corpo do espectador se movem. “Echo” parece assim menos uma torre que um caleidoscópio sem espelhos – objeto através do qual as facetas de aparência variada se reorganizam à nossa frente; ou melhor, um anti-caleidoscópio que conta com o espelho de nosso olhar. 

A presença do aço polido pode ser perturbadora ao toque – sua textura, mais orgânica que poderíamos imaginar – e, para além das dimensões, as sutis granulações e cores que compõem o corpo de cada monolito são também extraordinários elementos de interesse. Talvez sejam, se devo arriscar dizer, os elementos “temporais” que restarão mais evidentes na obra: únicos pois, podemos antever, como em toda obra pública, guardarão ao longo do tempo as intempéries de chuva e calor que inequivocamente marcarão sua presença; mas, à diferença de monumentos figurativos expostos a céu aberto, marcarão uma carne austera e altiva, quase santa, na perfeição do aço polido. Se “Echo” reserva algum elemento dramático é a consciência destes castigos tropicais sobre um corpo de aço perfeito, corpo que ousa desafiar apolineamente o microcosmos particular e caótico da arquitetura e natureza que lhe aflige – e ele e a todos nós.

Nascido em São Francisco, nos Estados Unidos, em 1938, Serra começou a desenhar antes de fazer esculturas e, embora siga com os desenhos, seu nome é imediatamente relacionado a este tipo de enormes peças tridimensionais. Com obras espalhadas por importantes museus e galerias, o esculturas e intervenções permanentes em instituições e espaços públicos de todo mundo, como outras obras site-specific do artista, “Echo” foi projetada especialmente para o IMS Paulista.

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Publicado em 12 de março de 2019 por em artes plásticas, Crítica.

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