Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Algumas ideias sobre Nino Rota

E594E6C4-9858-4C56-B623-7CF05D8A26D7Quando, em janeiro de 1991, o guitarrista do Guns nRoses tocou um tema de Nino Rota, a platéia – em delírio! – não deixou de reconhecer que Slash tocava um clássico. Era, para quase todos ali, um tributo à grande música, à tradição instrumental que de algum modo compõe nosso aparato simbólico Ocidental – este multifacetado hemisfério de roqueiros, sertanejos e eruditos. O fato da multidão no Maracanã, composta sobretudo de fãs de rock, não apenas reconhecer mas emocionar-se com aquela referência, demonstra o poder de invenção melódica do seu compositor. E, mais importante, seu impacto na cultura.

De fato a ideia do clássico era ali entendida em um contexto muito próprio. A turnê “Use your Illusioncontava em seu set list com a citação ao tema musical da trilogia O Poderoso Chefão”  de Francis Ford Coppola – para muitos, eu incluído, uma das maiores realizações da história do cinema. Embora não seja uma música de salas de concerto, ela ecoa toda sua evolução e, em alguns termos, a complementa. A verdade é que o Tema do Chefãonão é uma música para apresentações da programação oficial de grandes orquestras – a não ser em situações especiais. E, antes que venham gritar os desavisados, isso nada tem a ver com preconceito de seus programadores ou de seu público: as trilhas de Nino Rota, quase todas, sem exceção, sobrevivem ao filme e guardam uma identidade estilística indiscutível. Mas – e isso todo músico sério reconhece – sua função específica, sua pertinência como música incidental, de algum modo coíbem sua descontextualização em apresentações, por exemplo, na Sala São Paulo.

Em parte, isso se dá em respeito ao próprio compositor. Rota não precisaria ter suas obras cinematográficas executadas por orquestras pois de fato tem uma vastíssima produção musical para salas de concerto que segue ainda pouco explorada. Entre suas obras mais significativas estão óperas e balés – “Ariodante” (1942), “Torquemada” (1943), “Il cappello di paglia di Firenze” (1955), “La notte di un neurastenico” (apresentado no Teatro La Scala em 1960), ou “Amore di poeta” (1978) para Maurice Bejart – mas também concertos e sinfonias, peças para piano solo, obras corais com ou sem orquestra: todas com o indiscutível selo de qualidade de um dos grandes orquestradores e melodistas de nossa época. Estas obras, sobretudo as óperas, seguem impregnadas da mesma atmosfera mágica de sua obra para filmes. Mas não há por que pensar que o público que já cantarola o Tema do Chefãodeixaria de seguir encantado com o compositor da interessantíssima Sinfonia n. 1 em Sol maior (1936), a neoclássica Sinfonia n.3 em dó maior (1956), o extraordinário Concerto para harpa (1947).

Nino Rota (1911 1979) nasceu em uma família de músicos de Milão. Foi aluno primeiramente de Giacomo Orefice Ildebrando Pizzetti até que, habitando já em Roma, completa seus estudos com Alfredo Casella no Conservatorio de Santa Cecília. Era o ano de 1929, e o jovem já se tornara conhecido como um menino prodígio tanto como regente quanto como compositor: seu primeiro oratório L’infanzia di San Giovanni Battistafoi executado em Milão e Paris em 1923, e sua comédia musical Il Principe Porcarofoi composta em 1926. Após seus estudos na Itália, frequentou o Curtis Institute na Filadélfia, onde teve por professor o maestro Fritz Reiner e fez amizades com Arturo Toscanini e Igor Stravinsky. De volta à Itália, em 1936, começa sua longa carreira como professor que culmina com o posto de diretor do Conservatório Niccolò Piccinni de Bari (lugar onde ficaria de 1950 à 1978, um ano antes de sua morte por ataque cardíaco)

Seu trabalho no Conservatório é portanto contemporâneo a grandes filmes como Totò al giro dItalia(Mario Mattoli, 1952), La grande guerra” (Mario Monicelli, 1959), La bisbetica domata” (Franco Zeffirelli, 1967) e, com Luchino Visconti, Le notti bianche(1957),Rocco e i suoi fratelli(1960), “Il gattopardo” (1963). Além, é claro, foi o período desta que é a mais impressionante e frutífera colaboração entre  autores de música e cinema, aquela que Nino realiza com Federico Fellini – que se extende de Lo sceicco bianco (1952) a Prova dorchestra(1978), passando por La strada(1954), La dolce vita(1960), 8 ½(1963) e Amarcord (1973).

A vida dupla de diretor de conservatório e compositor para vários meios poderia resultar numa personalidade artística esquizofrênica. Mas Rota soa como Rota sempre. Isso é muito revelador de sua capacidade técnica, e bastante idiossincrático em um meio onde compositores extraordinários como John Williams ou Enio Morricone, como camalões, trocam a cor da roupa criativa a cada situação. Rota segue completamente reconhecível e isso se deve em parte a sua formação sofisticada e precoce – garantidora de uma maturidade artística sólida – mas também de suas fontes muito particulares.

Um historiador da música que passa pelo catálogo dos nomes que participaram da formação de Rota – Pizzetti, Casella, Reiner – apostaria tratar-se de um compositor de raízes profundamente ligadas a uma certa atitude modernista. Em parte é verdade, mas apenas na medida em que atitude não é necessariamente absorção de valores. O modernismo especial que grassa na música da Itália dos anos vinte e trinta será aquele a encontrar ecos nos expedientes neoclássicos. A sua música é de uma modernidade que jamais perde as raízes românticas ou deslumbra-se com os expedientes da vanguarda abraçando qualquer coisa pelo simples interesse da novidade.

A verdade é que, a um primeiro golpe de escuta, a música de Nino Rota parece algo ingênua à luz daquela de grandes nomes de sua geração (John Cage, Benjamin Britten, Samuel Barber ou o nosso Claudio Santoro). Mas não podemos deixar de perceber o quanto há de sofisticação na sua estrutura, no cultivo laborioso do passado, em uma certa linguagem que, se acaba por amadurecer anacrônica, segue sempre com um enorme poder evocativo de imagens através dos sons.

Por isso, em Nino temos tais grandes melodias, tais impressionantes achados instrumentais (o realejo de O Poderoso Chefão” é extraordinário) e, por isso, tamanha eficiência cinematográfica auto-evidente. Nino opta pelo público e essa opção é que torna coerente sua música em todas as esferas de sua produção. Para o professor Pier Marco De Santi – do curso de Cinema da Universidade de Pisa – é a coerência a grande lição de Rota. Miklos Rozsa foi um de seus grandes admiradores, e mesmo Stravinsky – que detestava música de filme – uma vez teria o chamado de príncipe da música de cinema. Nino por si, queria ser lembrado pela sua quase falta de pretensão. Dizia muitas vezes, “simplicidade é o objetivo, não o ponto de partida. Para ser simples em música há que se trabalhar muito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Uncategorized.

Últimos tweets

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

No ocidentalismo não salvamos almas. Alimentamos os peixes para passar as horas…

Agenda de posts

fevereiro 2019
S T Q Q S S D
« jul   mar »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728  
%d blogueiros gostam disto: