Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

“Guerra Fria” de Pawel Pawlikowski

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As imagens que abrem “Guerra Fria” (2018) retornam ao final, e compõem início e desfecho de uma narrativa quase perfeita que, como em todo musical, fala de amor. E como em todo melodrama, trata de um amor intenso e difícil, cheio de idas e vindas (“mais idas que vindas”, como bem diz Joe Morgenstern para o WSJ) – dificuldades de relacionamento que, no caso específico, se multiplicam pelo contexto político que dá nome à história.

Mas não sendo um musical (a despeito do rico manancial de música diegética), tampouco um melodrama, não é de amores impossíveis que trata “Guerra Fria” – ao menos, não apenas deles. Se há algo que impressiona, entre as tantas coisas que impressionam no belíssimo mais recente filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski, é exatamente o seu escopo. Com uma concisão que podemos qualificar como virtuosística, o filme desenvolve temas como a relação entre a cultura e o estado, a liberdade e o compromisso, ou o quanto se pode esperar do desejo num mundo que se move à revelia das paixões pessoais. Tudo isso elegantemente produzido sem qualquer efeito bombástico, num filme de meros 88 minutos.

O virtuosismo, bom que se diga, é resultado não de arroubos do jogo das câmeras ou da grandiloqüência visual, mas de um fantástico controle da forma. Sua elegância se expressa no uso das elipses narrativas inteligentes mas não obscuras, nos hiatos temporais reiterados mas nunca gratuitos (o filme abarca quinze anos de história), e no texto enxuto que desfaz a expectativa mais convencional de um filme de temática existencial. Sobre este aspecto, uma passagem notável: quando a protagonista comenta ter casado “apenas no papel” desvela não apenas a si, mas a algumas entre as forças da trama – por exemplo, um pouco da típica realidade do totalitarismo soviético. Mas, surpreendentemente, a frase dá, ainda, a chave para o final de uma trama que, de outra forma, poderia parecer gratuito e pouco coerente.

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É com essas sínteses poderosas que o texto deixa a imagem falar. Pois, ainda assim, “Guerra Fria” é um filme cheio de imagens inesquecíveis. O fotógrafo Lukasz Zal mostra-se mais uma vez um mestre das texturas, e as cenas de Zula cantando enquanto emerge no rio, ou inerte melancólica sobre o balcão do bar, são quadros a serem eternizados; quando, perto do final do filme, Wiktor conversa ligeiramente fora da tela ao encontrar um antigo amigo e parceiro de trabalho com seu filho pequeno, recebemos uma aula da expressividade cheia de significados de um bom enquadramento.

Como em “Ida” (2013), Pawlikowski se vale do preto e branco numa riquíssima palheta de contrastes e significados. Além da beleza plástica (quem não se deslumbra com o cinza que homogeneiza a todos no leste europeu, o brilho fulgurante de Paris e a qualidade extraordinária do branco sobre o qual reluzem em negro os protagonistas em toda seção final?), em “Guerra Fria”, o preto e branco transfigura simbolicamente os personagens ao longo da trama – eventualmente indistintos no início, destacados como indivíduos legítimos e trágicos ao final.

***

A trama de “Guerra Fria” gira em torno de Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig), respectivamente diretor e cantora de uma trupe de arte folclórica polonesa. Quando a trupe, formada por artistas amadores da Polônia rural, encontra um improvável sucesso popular, vê-se forçada a instrumentalização pelos agentes do governo, que percebe nela a oportunidade para propaganda do regime. É quando Wiktor foge para o Ocidente. Seu caso com Zula fica a mercê da agenda internacional do grupo, com encontros furtivos, ou algumas tentativas mais ou menos frustradas de sustentar uma relação perene: a cada vez que Zula e Wiktor se reencontram em Varsóvia, Paris ou Berlim, eles estão com novos namorados, novos trabalhos. Uma história feita de desencontros.

Tudo sugere um pouco da narrativa de um outro autor do leste europeu, Milan Kundera. E não qualquer livro, mas seu bestseller “A Insustentável leveza do ser”. Ali também, entre Praga e Zurique, atravessando algumas décadas do pós-guerra, lemos sobre os amores e os desamores de Tomás e Teresa (mas também, Sabina e Franz) e percebemos o quanto o apego à pátria e o universo político pode contaminar aquilo que de mais íntimo as relações podem preservar.

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Mas há uma questão importante. A chave para o livro de Kundera, dado nos seus primeiros capítulos, é o livre arbítrio e a curiosa realidade de uma vida onde não podemos voltar para testar as hipóteses de nossas escolhas. Não há ensaio. O amor, em “A Insustentável leveza do ser”, é o resultado de uma pequena comédia, aquela cujo roteiro construimos ao longo de nossos erros e acertos, às cegas. Em “Guerra Fria” há um componente diverso cuja chave talvez esteja na música (para um estudo um pouco mais alentado sobre as canções do filme, sugiro o artigo de Lisa Liebman para a Vulture). Uma delas, entoada por Zula logo ao começo, é uma ingênua canção chamada “Dwa serduszka” (“Dois corações”):

Dwa serduszka cztery oczy łojojoj
Co płakały we dnie w nocy łojojoj
Czarne oczka co płaczecie, że się spotkać nie możecie
Że się spotkać nie możecie, łojojoj

Mnie matula zakazała łojojoj
Żebym chłopca nie kochała łojojoj
Starzy o miłości dbają, młodym kochać zabraniają
Młodym kochać zabraniają łojojoj

Dois corações, quatro olhos, ai ai ai
Choram dia e noite, ai ai ai
Olhos escuros que não se podem encontrar
Que não se podem encontrar, ai ai ai!

Minha mãe mandou, ai ai ai
Não amar o rapaz, ai ai ai
Os mais velhos se importam com o amor, e proíbem aos jovens amar
e proíbem aos jovens amar, ai ai ai!

A canção diz o que é o amor em “Guerra Fria”: inalcançável e proibido. Ele não é resultado da vontade de seus atores, que são dele mais vitimas que motores. Sugere assim um componente trágico de outra qualidade, uma certa ideia de que os amantes são movidos por uma força mágica, atroz e fantástica, que não os permite a separação, contra a qual não é possível lutar. Esta ideia de amor permeia todo enlace dramático da trama: são quinze anos intensos e erráticos de uma relação que não conquista nada além de si mesma. Que Wiktor e Zula encontrem sua solução do modo que o filme sugere, é mais que um golpe de mestre de Pawlikowski: é um golpe de misericórdia.

por Leandro Oliveira

Um comentário em ““Guerra Fria” de Pawel Pawlikowski

  1. Deli1953
    6 de fevereiro de 2019

    Maravilhoso

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Publicado às 3 de fevereiro de 2019 por em cinema, Crítica, Uncategorized e marcado , , .

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