Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Hooligans que cantam “Nessun Dorma”

Vez por outra nossos gestores públicos retornam à ilusão pavloviana. É quando os aparelhos, direta ou indiretamente financiados pelo estado, passam a propor ações para “premiar” o público com o que há de melhor. A ideia é que o estímulo correto transforma o sujeito; e a premissa, a mais singela, que o povo, quando acessa coisas de qualidade, passa a consumir coisas de qualidade.

Esta semana o Metrô paulistano faz a sua parte. Talvez achando que devesse contribuir para a boa atmosfera do espaço público, talvez imaginando que devesse atuar de modo mais contundente no universo simbólico da cidade – já que conta com o ativo extraordinário de milhares ou milhões de usuários/dia – passou a difundir música nos seus vagões. Música instrumental, com um pouco de Jazz, um pouco de Clássico e MPB. Tudo que, a seu modo, reverbera o que costumamos chamar por “bom gosto” – aquela produção cuja sofisticação é mais ou menos evidente, e que, não alcançando o mercado das grandes massas, acaba por se ver relacionado, ao menos na percepção geral, a um certo universo da elite cultural.

E assim, desde a última sexta-feira, os usuários do metrô em São Paulo viram-se forçados às 200 músicas que, em fase de testes, tocaram em 6 estações e 14 trens até esta segunda-feira (10) – e que, a partir desta terça, deveriam estender-se pelas 55 estações da linha 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha, das 6h às 22h. O projeto se chama “Metrô+Música” e começa a ser implantado pouco mais de um ano após a linha 4-Amarela, da ViaQuatro, ter a mesma iniciativa. O objetivo declarado? “Relaxar os normalmente estressados usuários do serviço de trens metropolitanos”.

A princípio, não haveria do que reclamar já que o sistema de som é aquele já existente do Metrô de São Paulo; mas as controvérsias não pararam. Primeiro: o Instituto de Cultura e Cidadania (Icult) foi contratada como responsável pela lista de música reproduzidas – e recebe questionáveis R$39.000,00 por mês do Governo de São Paulo para gerar as playlists. Segundo: a recepção pública não foi nada positiva. Os usuários digitais encheram o Twitter com reclamações óbvias sobre a oportunidade da coisa (afinal, o problema mais singelo é o do sujeito que quer ficar quieto, e ver-se-á obrigado aos sambas e minuetos selecionados).

Os artistas acusaram prontamente a atualização inequivocamente inculta do Musak – o estilo musical que ao longo das décadas de oitenta e noventa encheu elevadores e salas de espera com suas sonoridades anódinas. O caso é que o Musak é por definição uma música criada como música ambiente, o que não é o caso de Bach, Miles e que tais. Afinal, com tal ação, argumentam os artistas, Bach, Miles e que tais servirão como adereço, se não como estorvo, para o usuário médio. Elas não necessariamente relaxam, e imaginar tais predicados é talvez uma barbaridade…

Abstenho-me destas questões maiúsculas. Prefiro pensar sobre a fantasia dos gestores, na construção do bom cidadão e suas sensibilidades. Certamente sem conhecer a “lei de Greesham” – a de que o mal afugenta o bem – acabam põem investir na sua pouco discutida contraparte – a de que bem atrai o mal. Afinal, há hooligans ingleses que cantam Nessun Dorma.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 13 de julho de 2018 por em Uncategorized.

Navegação

Últimos tweets

No ocidentalismo não salvamos almas. Alimentamos os peixes para passar as horas…

Agenda de posts

julho 2018
S T Q Q S S D
« abr    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  
%d blogueiros gostam disto: