Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Os ecos da Ceifadora; ou, o mais mortífero Janeiro musical do século

O ano musical seguiu com outras mortes, talvez até mais culturalmente relevantes que aquelas comentadas no post anterior. Em menos de dez dias, morreram Pierre Boulez e David Bowie.

Replico os posts do Facebook.

*

Sobre Pierre Boulez, perguntam-me se gosto ou não gosto. Para resposta, lembro de uma anedota contada por Horowitz, o pianista.

“Certa vez, um maestro na platéia de uma apresentação de ópera de Mozart, senta-se ao lado de uma jovem senhora, muito espalhafatosa e aparentemente pouco interessante apesar das roupas caras. Ao final do primeiro ato ela, muito orgulhosa por estar ao lado do músico prestigioso, engata:

– Maestro, o senhor gostou da ópera? Sabe, eu não ligo muito para Mozart…

Ao que o maestro respondeu:

– Madame, não faz a menor diferença.”

Não faz a menor diferença se gosto ou não gosto de Boulez, e detestaria ser eu a reverberar sua postura arrivista e leviana quando na minha idade publicou com ares de triunfo que “Arnold Schoenberg está morto!”, ou vaticinou que dever-se-iam “queimar os teatros de ópera”. Pierre Boulez, uma espécie de Oscar Niemeyer da música, a despeito de toda controvérsia que muito apropriadamente geraram suas criações e seus valores em arte, foi um dos monumentos da cultura do século XX.

Como intérprete, fico com seu Mahler e Debussy – por quem lançou olhares bastante estimulantes. Como criador, o inescapável “Marteau”.

Que a terra lhe seja leve.

 

 

*

Um de meus discos preferidos de Bowie é “Baal” ou “David Bowie in Bertolt Brecht’s Baal”.

Outro dia li sobre como um outro artista recentemente falecido, Pierre Boulez, tomava riscos. Ri comigo mesmo, pois não acredito em “risco” quando se fala de arte (menos ainda de Boulez, mas isso é outra história). Mas sim, é possível acreditar que a arte cultive ousadia e capacidade de provocação. Se somamos a isso alguma pertinência, temos algo maior. E retorno a Bowie: acho que “Baal” é desta natureza. Um apogeu.

Que este homem terrivelmente, tragicamente, monstruosamente charmoso, este grande senhor e artista, David Bowie, descanse em paz.

“The Drowned Girl”

Once she had drowned and started her slow descent
Down the streams to where the great rivers broaden
Oh, the opal sky shone most magnificent
As if it was acting as her body’s guardian
Wreck and duck weed slowly increased her weight
By clasping her in their slimy grip
Through her limbs, the cold blooded fishes played
Creatures and plant life kept on, thus obstructing her last trip

And the sky that same evening grew dark as smoke
And its stars through the night kept the brightness still soaring
But it quickly grew clear when dawn now broke
To see that she got one further morning
Once her pallid trunk had rotted beyond repair
It happened quite slowly that she gently slipped from God’s thoughts
First with her face, then her hands, right at the last with her hair
Leaving those corpse-choked rivers just one more corpse

 

 

*

A revista Veja, em uma homenagem que até onde posso averiguar é inédita, dedica a capa de sua edição ao camaleão do Rock. A capa, não. São exatamente doze capas diferentes que virão às bancas neste final de semana. E mais, emolduram quase um dossiê sobre a vida e obra de David Bowie.

O impacto da morte de Bowie mostrou que, como artista e homem público, ele conseguiu uma raríssima fusão de respeito do público e da crítica. Mais ainda, e talvez curiosamente mais relevante, cultivou ao longo de sua carreira o carinho sincero de muitos de seus parceiros e companheiros de “armas”. A comoção nas mídias sociais foi muito além do chororô de fãs, mas um pungente gesto de homenagem coletiva a uma das vozes de nosso tempo.

Ontem postei outra homenagem. Aquela que a Orquestra da Radio Bávara fez no dia do aniversário de seu chefe, o maestro Mariss Janson (felizmente vivo). Ambos momentos – a comoção na mídia social pela morte de um, e a surpresa de aniversário de outro – acabaram por me dar um certo conforto. Neste mundo de tanta brutalidade, egoísmo e venalidade, há ainda espaço para o gesto sincero e simples do reconhecimento da “amizade espiritual” que poucas esferas da vida podem consagrar.

Que sejam hoje os artistas a canalizar estas energias sociais de forma a mais veemente, apenas aumenta a responsabilidade do artista de nosso tempo. De algum modo, e talvez mais que nunca, a Arte e o Belo são inequívocas forças motoras de nossa corroída civilização.

– Vida longa, David Bowie!

por Leandro Oliveira

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Publicado em 19 de janeiro de 2016 por em Uncategorized.

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