Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Texto de adolescente e ideologia centenária; ou, a pobreza intelectual de alguém que se diz da minha geração

Acabo de descobrir ser um “imbecil” como Rodrigo Constantino, Felipe Moura Brasil, Eduardo Wolf, Joel Pinheiro, Leandro Narloch e Gustavo Ioschpe. Tal julgamento foi feito por um sujeito “da minha geração” – ao menos, assim ele se auto-declara, o que discordo in limine posto que escreve como um adolescente de centro acadêmico e cultiva ideologias mortas há cinqüenta anos.

Que acontece? Amigos me passam a referência de um post de Facebook curiosíssimo, escrito por um tal Diego Matos com quem nunca estive mas que parece ser um leitor dedicado deste blog.

Ali, ele disserta sobre as manifestações de domingo dia 16. E, no final, inadvertidamente, sobra para mim. Peço a paciência ao leitor e cito a coisa no idioma original, algo parecido com português:

A Globo News faz uma cobertura da micareta da bestialidade, aos modos de um rock in rio ou do carnaval de salvador, mas esquece de mostrar ao “povo” e aos seus queridos telespectadores as personalidades ilustres e os nobres responsáveis pelo entretenimento. Fora o demente e coadjuvante do Eduardo Bolsonaro, por onde andam as demais raposas que já participaram das “manifestações” como Ronaldo Caiado, José Serra, Aloysio Nunes, João Dória Jr., Andrea Matarazzo, Agripino Maia, dentre muitos outros? Foram estrategicamente retirados pelo editorial ou preferem ficar anônimos pois têm interesses nas próximas eleições? Talvez tenham repulsa à classe média normativa e ignorante que os elegem? Sabem que o grande acordo com as chagas do PMDB já foi feito e o moleque mimado do Aécio vai ter que esperar? Alguém iluminado poderia me explicar, ou vou ter que esperar algum diletante da imprensa falar? Qual será o contorcionismo dos cínicos Merval, Mainardi ou Azevedo para justificar a covardia e a falta de prática política dessas lideranças? Ou iremos dar ouvidos ao nível mais baixo protagonizado por imbecis da minha geração como: Rodrigo Constantino, Felipe Moura Brasil, Eduardo Wolf, Leandro Oliveira, Joel Pinheiro, Leandro Narloch ou Gustavo Ioschpe? Para coroar, teremos o Serra com o vigarista Nunes no Roda viva? Vomitando em 5, 4, 3, 2, 1…

Não costumo discutir política no blog ou no Facebook (uso mais o Twitter para tanto) mas, claro, todos que leem o blog sabem, não costumo fugir de polêmicas. E como se vê, ele me cobra explicações. Não vou falar de política, de qualquer modo, mas de comunicação. Faço, para responder o gajo, apenas uma análise de texto. É divertida a coisa. Venha comigo leitor, permita-me ser, qual Virgílio, o guia para travessia deste inferno que é o texto de Matos.

Para começar, é isso que parece: Matos acha que a oposição, neste 16 de agosto, sumiu! Nesta manifestação, quando até em inserções na televisão o PSDB pediu para o povo participar, nesta manifestação a oposição sumiu. Inacreditável, mas vá lá, vou ajudar o leitor organizando a primeira pergunta: “A Globo News (…) esquece de mostrar (…) aos seus queridos telespectadores (…) por onde andam (…) Ronaldo Caiado, José Serra, Aloysio Nunes, João Dória Jr., Andrea Matarazzo, Agripino Maia (…)”. Conclui: “Foram estrategicamente retirados pelo editorial ou preferem ficar anônimos pois têm interesses nas próximas eleições?”

O senhor Matos parte de uma questão inexistente, que inexistente segue mesmo quando obliterada por sua escrita especial. Pois, como disse, não consta que os nomes citados tenham se escondido, ou mesmo que a opinião pública os tenha escondido. Ao contrário – e isso foi, reitero mais uma vez, matéria em praticamente todos os veículos de comunicação, inclusive os esquerdistas: a grande novidade do ato é que os partidos de oposição estavam pela primeira vez neste 16 de agosto, dispostos a participar da manifestação pelo Impeachment inclusive com chamada pública pelos respectivos canais oficiais.

Quem não viu? Isso é matéria de fato, não de opinião.

Dito isso, retornemos ao texto de Matos, quando a própria pergunta mostra a bizarria do assunto: não poderiam os políticos serem estrategicamente retirados pelo editorial se na manifestação não estivessem, ou dito de outra forma, se ficassem anônimos não precisariam ser retirados. A conjunção adversativa “ou” não faz sentido, a não ser que se pretenda com ela dar o sentido aditivo de um português castiço que evidentemente o senhor Matos não domina. Talvez tenha tentado dizer: “Foram estrategicamente retirados pelo editorial E preferem ficar anônimos…?”.

Mas de lado a gramática, há problemas lógicos incríveis no post, curtido por não menos incríveis 37 pessoas. O que segue nos três pontinhos da pergunta acima, permito-me a liberdade, não tem qualquer sentido. Afinal, se os oposicionistas “têm interesses nas próximas eleições” tudo que precisariam fazer é não “preferir ficar anônimos”. Por dois protestos (em março e abril), a oposição se acovardou em casa e foi cobrada por isso. Agora que finalmente a oposição se apresenta, por que cargas d’água iria se esconder dos editoriais e do grande público? Senhores, o governo conta com 71% de desaprovação! Se a oposição pretende ganhar as eleições, por favor, apresente-se!

Assim, Matos parte de um problema inexistente para finalmente iniciar sua análise delirante. Mas a lógica de Matos é, em seu delírio, implacável. Sugere primeiro que, os oposicionistas, “talvez tenham repulsa à classe média normativa e ignorante que os elegem (sic)?”. Mas se os oposicionistas não estavam na passeata – ou estavam? – e ao mesmo tempo tem repulsa à “classe média normativa” (seja lá o que isso queira dizer) e “ignorante”, ela mesma que compõe a passeata, podemos assumir, então que são, os oposicionistas, parte de um universo paralelo: nem apoiado pela classe média normativa e ignorante (que estava na passeata), nem elite política (posto que oposicionista) nem defensora dos fracos e dos oprimidos, que isso é coisa dos bons e justos como Matos. Assim, o projeto de poder da oposição seria realmente bizarro e único na história universal: manda às favas de uma só vez os políticos de turno, a classe média das ruas e os menos favorecidos.

O que segue é a retórica da mais triste e singela histeria. Na pergunta “sabem que o grande acordo com as chagas do PMDB já foi feito e o moleque mimado do Aécio vai ter que esperar?” ficamos sem entender quem é o sujeito da frase: a Globo News (sim, na gramática particular, acredito que coubesse um “a Globo News sabem”), os oposicionistas da passeata ou ainda, mais improvável mas vai saber!, “a classe média normativa e ignorante”. Quem “sabem”? Eu não sei, mas Diego Matos sabe. Ele sabe do acordo, ele sabe dos movimentos internos dos partidos e das mentes dos poderosos… 

…Ele sabe das intenções e interesses de todos: cada um dos 800.000 manifestantes, líderes oposicionistas, editorialistas da Globo News. Matos, quando pede a explicação a um “iluminado”, tenta apenas ser irônico pois de fato todo seu texto É a explicação de tudo. Ele é o iluminado. Assim, o pobre sujeito imagina o mundo uma máquina inteligível e a política seu pequeno teatro particular. É reacionário ou covarde demais para entender o peso da realidade e prefere construir a sua própria realidade e acreditar nela. E claro, como sempre, como num ambiente psiquiátrico, cultiva o ódio contra todos aqueles que lhe diga que aquilo que crê não é real.

Tudo isso é muito melancólico. Que Matos siga na sua lógica de tolo, cheio de som e fúria, siga sua arrogância de rei de uma casca de noz – nada tenho com isso, nada quero ter. Seria um drama shakesperiano se não fosse apenas uma bobagem perigosa.

Estou desde o início do texto tentando elevar o nível, cito Virgílio e agora Shakespeare, mas a coisa se mostra impossível. Disse “bobagem perigosa” pois queria recorrer a uma passagem também do Facebook, agora mais nobre, do amigo virtual Nelson Ascher:

Há uma grande diferença entre, por um lado, os petistas em geral e o resto da esquerda e, por outro, as pessoas não convictamente esquerdistas. Estas estão de fato com o saco cheio do PT no poder e cada vez mais irritadas com as lideranças petistas e seus aliados. No limite, têm uma raiva cada vez maior de certas figuras políticas, como Dilma e Lula. Mas a imensa maioria dos brasileiros que desaprovam o partido que está no poder não manifesta qualquer animosidade especial contra seus concidadãos que apenas votam no PT e o apóiam. Do outro lado do muro, as coisas são bem diferentes. Para começar, dando a maior bandeira, o grosso dos petistas vive acusando seus opositores de alimentar um ódio sem igual. E repetem dia e noite essa acusação com um ódio sem igual. Eles são incapazes de defender qualquer aspecto do governo que apóiam sem passar muito mais tempo caluniando e denegrindo as gestões de seus rivais. Mas isso ainda é pouco. A verdadeira diferença é a seguinte: petistas e demais esquerdistas, além de odiar rabidamente os políticos e lideranças dos outros partidos, odeiam igualmente ou até mais cada cidadão brasileiro que não vote no PT, qualquer concidadão que discorde deles (petistas, esquerdistas) ou os critique. Os milhões de brasileiros que têm saído às ruas querem ver no máximo algumas dezenas de pessoas longe do poder e parte delas atrás das grades. Já os petistas &cia., no mínimo, expulsariam do país todos os políticos oposicionistas e todo mundo que participou das manifestações. (A história nos garante que, podendo, fariam coisa pior.) Quanto a quem não votou neles ou votou contra, cacetete, cana e a descoberta do que seria uma eventual Pátria Reeducadora. Resumindo, segundo eles: quem não está 100% com eles é 100% inimigo; todo mundo é culpado até aderir ou se submeter; votar neles é um direito, votar na oposição é crime. E discordar deles é fazer o discurso do ódio.

Espero que com esta passagem de Ascher o leitor saia com a dose diária de alto nível a que este blog pretende. Mas não os deixo sem um adendo: a única coisa que lástimo do delírio de Matos é que eu e meu amigo Joel Pinheiro não tenhamos – como todos os outros citados – a oportunidade de uma coluna na Veja.

por Leandro Oliveira

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