Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

O mundo da arte sem “hipe”

“Art’s Prospect” (2004), do crítico cultural Roger Kimball, é uma seleção de ensaios escritos por um período de vinte anos. Para quem não sabe, Kimball é editor da revista New Criterion e crítico de arte da Spectator. Se o livro acaba sendo falado mais por suas pertinentes provocações ao cenário atual – seja a política curatorial de alguns museus da moda, os falsos problemas dos artistas contemporâneos ou a ignorância proselitista da crítica -, ele se destaca hoje, mais de dez anos após sua publicação, sobretudo pelos ensaios sobre os grandes artistas e pelas ótimas questões que suscita sobre a relação da arte americana e sua raiz europeia.

Van Gogh, Picasso, Rothko, Moreau, Klee, Malevich… Certamente o elemento mais assombros do livro é que Roger Kimball não se furta em julgar (!) alguns dos grandes. Julgar em todos os termos, estando os ensaios cheios de frases sentenciosas, raramente desprovidas de observações sólidas e contraditórios honestos – e por isso mesmo, absolutamente bem-vindos. Como diz Kimball, a maior parte do que ocorre no mundo da arte atual envolve não as coisas permanentes (que podem ser velhas ou novas) mas as mais recentes, “avaliadas mais pelo barulho que fazem que pelo silêncio que inspira”. Ou seja, na arte, o “hipe” is the not-that-new black.

Entre tantas, divertidas e cultas observações, pode-se de fato aprender muito com Kimball. Se pudesse arriscar, levantaria ao menos três lições:

1) apenas fortalecendo a crítica pode-se construir um mundo da arte saudável;

2) a crítica é relevante quanto mais é preocupada em dizer o que é bom ou ruim e menos do que é “novo” ou “velho”;

3) sempre que um artista ou um historiador e crítico se vale de ruminações ontológicas (“o que é arte?” caros aos dadaístas ou seus herdeiros como Andy Warhol ou Damien Hirst), estão a expressar cansaço pessoal e vício academicista, raramente expressando alguma contribuição relevante. “Dadaístas não pretendem fazer qualquer revolução na arte, pretendem destruí-la”: Kimball reclama uma certa “psicopatologia”, nestes casos. E ao final, concluo que o público não precisa abster-se de acusar o golpe.

O livro é um grande achado, reverberado pela crítica internacional e claro, pouco conhecido no Brasil. Alguns excertos de resenhas:

“Kimball’s art reviews are lucid mini-educations in the exercise of taste…If you find most of today’s art establishment pretentious, ideologically silly, and largely devoid of taste and talent, you will love this collection of forty sharp-witted articles.” Brian J. Buchanan ( Nashville Tennessean).

“Roger Kimball is one of the few critics writing in art today who combines an acute visual sense of beauty with historical knowledge, a coherent philosophy of art, and an ability to write clean, vigorous, and accurate English. To these virtues he ads refreshing common sense. So there is much to be learned and enjoyed in these stimulating, provocative and elegant essays.” Paul Johnson.

“Far from being just another polemical rant, Art’s Prospect takes us inside the heads of those who execute and market contemporary art, helping us understand what they think they are doing, and why doing it is such a profitable business.” (First Things).

“Kimball knows his business… His reviews make me hungry to see what I’ve missed.” (The Weekly Standard).

“One of the ablest and most philosophically skilled critics on the current scene.” Frederick Morgan.

“A trenchant and courageous critic… his positive values and his historical grasp make him far more than a mere polemicist.” John Gross.

“One of the most candid and perceptive critics of American culture.” Gertrude Himmelfarb.

“A scathing critic but one whose tirades are usually justified… his intellectual rigor is refreshing.” Catherine Saint Louis (The New York Times).

“Witty, insightful, and inciting compilation of twenty years of art reviews… Kimball’s opinions have an appealing candor, and, delivered in a lively colloquial style, make for engaging, intelligent reading.” (Art Scope).

Um livro a não perder em hipótese alguma, infelizmente disponível apenas em inglês.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 7 de julho de 2015 por em artes plásticas, livros, Resenha e marcado , .

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