Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Entusiasmo e sutileza com a Orquestra Festival de Budapeste

A Orquestra Festival de Budapeste apresentou-se no palco da Sala São Paulo estes dias 29 e 30 de junho. Antes mesmo de iniciar a performance já era possível notar algumas das “excentricidades” da Orquestra Festival de Budapeste; o oboé não seguia a regra e ao invés de uma nota tocava três: o Sol para as cordas, o lá para os sopros e o Si bemol para os metais. Para o público habituado, era a senha que a noite seria divertida.

Indiscutível o talento individual dos instrumentistas, excelentes. Somado à sempre inventiva disposição no palco, a sonoridade da Orquestra Festival de Budapeste resulta heterodoxa. Esta tímbrica sofisticada e poderosa talvez seja o maior trunfo da OFB, e é ela que o temperamento e imaginação musical galvanizantes do maestro Ivan Fischer deve domar. E doma com gênio.

Nos dois programas apresentadas em dois dias vimos toda uma gama inteligente de usos que uma orquestra sinfônica pode assumir e ficou claro que longe de qualquer decadência, segue como um meio quase infinito de possibilidades musicais, sem sombra de dúvidas o mais poderoso organismo de performance da história.

Após um Bártok (Esboços Húngaros) cheio de flutuações agógicas – acelerações e ritenutos dentro das frases – e suíngue inacreditáveis, Fischer produziu uma versão para o acompanhamento das célebres “Quatro Últimas canções” de Richard Strauss que poderíamos dizer miraculosa: afinal, como poderia a orquestra contar com tal sonoridade robusta sem cobrir a voz não tão grande mas sempre audível da soprano sueca Miah Persson? Não sei. Mas o equilíbrio sutil entre os naipes da orquestra permitiu que a soprano reservasse pianíssimos os mais delicados e com isso, construísse algumas frases de fato inesquecíveis – “o weiter, stille Fried!” de “im Abendrot” foi apenas uma delas, de fazer este experiente crítico fechar os olhos. Um amigo cujo alemão é fluente reclamou de sua dicção.

Com um Mahler (4a Sinfonia) de andamentos heterodoxos, Fischer mostrou como opera parte de sua mágica. Foi uma sinfonia de permanentes contrastes, não apenas entre os movimentos de uma obra, mas sobretudo a cada oportunidade de novas seções e timbres. Fazendo assim, Fischer exige uma atenção especial não apenas por parte do público mas também de seus músicos: uma quarta Sinfonia cheia de arestas de timbres, arroubos histéricos e humor, algum lirismo – um discurso “moderno”, ou ao menos da modernidade que imagino tornasse Mahler tão difícil para seus contemporâneos.

O programa do dia seguinte era mais variado e nunca uma “Abertura sobre temas hebraico” se mostrou tão densa de ideias musicais – densidade que se mostrou estupefaciente no primeiro concerto para piano de Prokofiev, uma obra de juventude do compositor que talvez ganhasse um pouco com se contássemos com um intérprete mais enérgico, vivaz e brilhante que Alexander Toradze. A performance ressaltou contornos sombrios como nunca, mas pecou pela falta do elemento de virtuosismo circense que faz de Prokofiev um compositor tão idiossincrático.

De qualquer modo, Toradze é um pianista sofisticado e em diversos termos isso ficou provado na performance do Concerto em Sol de Maurice Ravel. A delicadeza de sua sonoridade em momentos cruciais só pode ser comparada em emoção pelo bom gosto de seu fraseado ou pelo quase mágico equilíbrio entre o que é ou não importante no tecido ravelino. Uma versão a não esquecer jamais.

O Brahms mostrou que além de nunca deixar de lado o risco, Fischer e a OFB sabem honrar a grande tradição sinfônica. A música do mestre alemão soou ao mesmo tempo robusta e sutil, com opções de tempo sempre dispostas a variações tematicamente consequentes. O último movimento, talvez ligeiramente rápido demais, acabou por mostrar um Brahms o qual não estamos necessariamente acostumados – a despeito de seu drama latente, um movimento quase alegre.

O triunfo de ambas as noites foi legitimado pelo entusiasmo da platéia. Ao bis duas observações: a evidente inadequação desagrável de ouvir “Mambo” de Leonard Bernstein após a sinfonia de Mahler, e sobretudo a generosidade da orquestra ao cantar (sim, cantar!) em uníssono uma das mais belas melodias de Tom Jobim*.

*ps: a melodia cantada pela OFB foi “manhã de carnaval”, de Luís Bonfá. Originalmente serviu como uma das tantas belíssimas canções do filme “Orfeu Negro” – e se a maior parte de “Orfeu” foi composta por Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, “Manhã de Carnaval” e “Samba de Orfeo” são de Luiz Bonfá. Que fique o registro do erro.

por Leandro Oliveira

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 6 de julho de 2015 por em Crítica, falando de música e marcado , , .

Últimos tweets

No ocidentalismo não salvamos almas. Alimentamos os peixes para passar as horas…

Agenda de posts

julho 2015
S T Q Q S S D
« jun   ago »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Siga Leandro Oliveira no Facebook

%d blogueiros gostam disto: