Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Evgeny Kissin em São Paulo; ou: as virtudes de um pianista jurássico

São claras para todos nós amantes de música as virtudes esperadas em um espetáculo de Evgeny Kissin. Sobretudo, sua sonoridade extraordinária, que ficou mais uma vez explícita no programa desta quarta-feira dia 17 de junho, na Sala São Paulo. Extraordinária sonoridade em sua variedade de timbres – nunca opacos -, projeção de som quase sobrenatural, mas também no domínio absoluto do equilíbrio entre suas diversas matizes (a equalização de sua “orquestra”, por assim dizer) e a extensão de sua dinâmica – de pianíssimos e fortíssimos sempre presentes, nunca anódinos uns ou agressivos os outros. Ouvir Evgeny Kissin é, encontro uma boa analogia, como ouvir a Filarmônica de Berlim: mas não qualquer Filarmônica de Berlim, aquela de Herbert von Karajan.

Trata-se portanto da perfeição que resume todas as qualidades positivas potenciais do piano. Ou, ao menos, de um certo piano. Pois vejamos: é sabido que tanto Claudio Abbado quanto Simon Rattle, os chefes subseqüentes da Filarmônica pós-Karajan, ao assumir a orquestra estavam imersos nas questões da dita historisch informierte Aufführungspraxis de Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt ou Anner Bylsma. Estes intérpretes historicamente orientados sabiam que se a Filarmônica da era Karajan era indubitavelmente um instrumento imponente e impressionante, o era ao preço de uma certa homogeneização de sua dicção. Aquele som extraordinário de Karajan, seguindo a grande tradição Wagner-Fürtwangler (com acréscimos importantes do ouvido e precisão dos engenheiros de som do pós-guerra) era ditado por um certo “peso” (o termo é do próprio Wagner) que limitava – ao menos em parte – muitas nuances de articulação e bania outras tantas oportunidades tímbricas. Os novos tentavam resgatar essas sonoridades em toda sua abrangência, e talvez o ponto máximo deste experimento aconteça exatamente com as “Paixões” de Bach gravadas recentemente por Rattle com a Filarmônica (falei a respeito em um post do ano passado que pode ser lido aqui). Da mesma forma, toda uma geração de pianistas nascidos em finais da década de quarenta e cinqüenta atentaram para esta mudança de mentalidade e hoje é impossível pensar em Murray Perahia, Andras Schiff ou mesmo no mais recente Kristian Zimermann (sobretudo em suas gravações dos últimos quinze anos) sem considerarmos os “avanços” da prática histórica em suas interpretações.

Não é o caso de Kissin. Voltando ao concerto do último dia 17 na Sala São Paulo, o programa era, nestes termos, o mais apropriado possível com o tipo de organização didática e cronológica dos clássicos – Mozart, Beethoven, Brahms e “espanhóis”. Intelectualmente, o programa não suscitava interesse maior mas isso é desdobramento direto da natureza mesma do mundo mental que Kissin simboliza e materializa: como um gênio de outra era, seu programa é aquele de um momento quando ir à sala de concertos não evocava conceitos sofisticados ou eventos que são verdadeiras teses… Um programa “com obras afetivas”, segundo ele diz no Estadão deste domingo. Deveríamos reconhecer um programa jurássico (já que estamos, na música clássica brasileira, revivendo termos paleontológicos) por um pianista jurássico?

Não importa. É claro, para meu gosto e à luz do que foi dito acima, que a Mozart me pareceu faltar teatro e humor. Da “Appassionata” de Beethoven, ressenti que as transições tivessem metricamente – fosse em acelerando ou ritardando – pouca organicidade para convencer a ligação entre os temas (são afinal os pontos nevrálgicos para a construção dos tempos flutuantes optados por Kissin). Mas em todo o programa, vimos como um pianista pode tornar seus sons mágicos – ora soturnos, ora veementes – em um virtuosismo peculiar, exuberante mas nunca impertinente. De qualquer forma, um concerto extraordinário: jamais foram comuns, a qualquer tempo, artistas com o magnetismo e dedicação de Evgeny Kissin. O público reconheceu que estava diante de um pequeno milagre – mesmo que anacrônico – e aplaudiu entusiasticamente.

por Leandro Oliveira

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