Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Um pombo pousa no galho… e cita Beckett sem entender

Holger Andersson e Nils Westblom lamentando não estar em

Holger Andersson e Nils Westblom lamentando não estar em “Esperando Godot”

Que o filme seja alinhavado por dois pobres-diabos que passam o tempo a tentar comerciar invendáveis dentes de vampiros e sacos de risadas, é até desculpável – a referência aos clowns atônitos mas imensos de Samuel Beckett, embora trivial, é pertinente num roteiro que, do título à última cena, somados ao didatismo das pequenas narrativas introdutórias sobre a morte, pretende tratar do absurdo da existência. Que os personagens sejam apenas pretexto para esquetes – algumas absolutamente triviais outras de algum divertimento, a maior parte sem conexão entre si mas todas com um senso plástico inequívoco -, isto é, senão indefensável, certamente desagradável.

Desagradável pois a formalização do nonsense através da rotina de cenas soltas é um vício de redundância que remete a certo ambiente de roteiro escolar. Amadorismo do roteiro que, claro esteja, não é aquele do impacto plástico da direção de arte deste incensado e enfadonho filme do diretor sueco Roy Andersson, “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” (2014). Há tudo: virtuosismo da luz, textura e figurino (muito conveniente à menção pública deixada pelo diretor à arte de Bruegel, mas evidente também, Hopper) e talvez por isso um certo ar pretensioso. E se lembrar Beckett é desagradável, o visual-ostentação torna tudo realmente constrangedor.

Salvos estão os “Vladimir” e “Estragon” deste enredo, protagonizados pelos atores Holger Andersson e Nils Westblom – uma atuação sofisticada que aliás é reverberada por toda trupe. A função dos “protagonistas”, como dito, é esvaziar a trama ao reiterar o niilismo de tudo sem concatenar qualquer fio narrativo. A cada entrada redundam a rotina que explicita sua (des)graça, e lá pelas tantas nos faz morrer de tédio. Talvez seja esta a proposta. Mas se o filme surpreendeu o juri e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, que fique claro, não foi com meu voto.

Reitero que minha decepção com o filme se deu não pelo seu falso-humor, que poderia ser mais inteligente, não pela ausência de narrativa, que nisso já estamos educados, mas sim pelo desinteresse de sua construção e pretensão de sua plástica. Com estas duas e uma trama cujo “drama” pode ser qualquer coisa, há de se convir que resta muito pouco a aprovar, a não ser elementos técnicos pontuais. Isso dito, arrisco uma explicação: leio que Andersson realiza seu filme do alto de uma bem sucedida carreira como publicitário sueco. Há quem imagine que essas coisas não somam nada, mas ser por décadas um publicitário na Suécia deve dar ao sujeito alguns maneirismos para condução de audiovisuais…

De qualquer forma, ao longo de seus cem minutos, o filme vai deixando claro a qualidade especial de niilismo a que seu diretor pretende. Se há vários modos de apostar no nada, poucas me pareceram mais desinteressantes quanto a deste especialista em vender coisas em países ricos com bem resolvido estado de bem-estar social. Talvez, além da atuação dos atores, haja ainda algo que possamos dizer a favor de “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência”: é um filme sincero. Se fosse mais curto talvez tornasse mais fugidias suas intenções, deixasse abertos símbolos ou herméticas algumas metáforas. Com o tempo que toma, explicita tudo; e não resta senão concluir que o diretor aposta no non-sense pois de fato tem muito pouco a dizer.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 5 de junho de 2015 por em cinema, Crítica e marcado , , , .

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