Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Ainda sobre Dinossauros

Excelente a matéria de Nelson Rubens Kunze para a Revista Concerto, onde explora em detalhes as questões dos cortes de verba das OSs – as parcerias público-privadas do governo do estado de São Paulo e os organismos da cultura.

Nelson chama atenção para um fato irrefutável: em termos absolutos, o corte é significativo para as entidades mas irrelevante para o orçamento do estado. O resultado trágico da contigenciamento acabou por ser a punição da competência que, como sempre, saberá se reorganizar com menor orçamento mas verá – como já tem visto – parte de sua estrutura seriamente afetada. Em suas palavras:

Será que, por uma economia marginal e duvidosa, vale a pena impor tamanho ônus às OSs? Seria altamente desejável que o governo reconsiderasse, a partir de uma perspectiva mais ampla, os cortes que afetam um dos setores mais organizados da gestão pública, que são as organizações sociais da cultura. Assim como a saúde e a educação, as OSs também merecem uma atenção especial e um tratamento diferenciado.

Uma opção política que talvez tenha uma premissa simbólica justificável (contenção de gastos deve ser para todos) mas que inequivocamente fragiliza este já comprovadoamente bem sucedido e moderno modelo de gestão pública.

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Recentemente, e no rebote da questão do contigenciamento, um infeliz artigo de João Marcos Coelho levantou a pergunta “para que serve uma orquestra sinfônica”? Segundo ele, seu custo é alto, seu gasto – numa realidade como a brasileira – mal feito. A pergunta, sempre pertinente, da forma como foi posta esconde algumas armadilhas.

Qualquer gasto público é alto se seu resultado for irrelevante. Ao ponto de, sempre que falo na questão, recorrer a um pequeno jogo de palavras: mil real público mal gasto é caro, enquanto 100 milhões de reais com entrega de qualidade e quantidade não é caro mas apenas muito dinheiro. Isso serve para tudo, tanto dos recursos expressivos gastos no INCOR – onde se investe muito dinheiro que não pode, pelo seu resultado extraordinário, ser entendido como “caro” – ou nas montanhas infindáveis de dinheiro despendidas no Ministério da Educação – que à luz do que entrega aos nossos jovens, é caríssimo!

Mas falando de nossa seara, peguemos o exemplo do Theatro Municipal de São Paulo. Pelos idos de 2010 eu fui a única voz pública a comentar que do modo que seguia, o Theatro Municipal era irrelevante para a cidade. Como gasto desnecessário, era sim, muito caro. Me doía a constatação, e tomei muitas bordoadas pelo posicionamento, mas a manutenção de seus corpos estáveis não se justificava, haja visto o número exíguo de espetáculos produzidos. Mas, onde estava João Marcos Coelho e nosso jornalismo cultural à época para dizer dos custos caríssimos do Municipal? Talvez por considerar seu “resultado social” (afinal empregava centenas de funcionários, mesmo que ociosos), a coisa era deixada de lado. A grita surge agora quando temos temporadas planejadas, espetáculos completamente vendidos, acesso organizado aos ingressos (há três anos sequer era possível a compra online com cartão de crédito). A grita vem agora, ia dizendo, com três temporadas bem sucedidas, novos projetos de divulgação, materiais de comunicação convidativos, um educacional eficiente e, finalmente, uma qualidade média que não deve nada a qualquer casa de ópera da Europa continental (Londres é outra coisa). Agora que a coisa se profissionaliza, o TM lhes parece custar muito… Brasileiro não gosta de sucesso, já comentavam Pelé e Tom Jobim.

À questão, então, e sem subterfúgios: uma orquestra sinfônica custa muito? Depende das partes envolvidas, depende do que se propõe e do que devolve com os recursos alocados. Em termos absolutos, precisando de uma referência, aqui vai mais uma dura realidade para nós do meio da cultura: a Osesp custa por ano menos da metade de um “Barusco”. Para quem não sabe, o “Barusco” é a nova medida de valor que toma como parâmetro o dinheiro desviado a ser devolvido por um ex-gerente da Petrobrás, Pedro Barusco. Pedro devolverá aos cofres público 97 milhões de dólares. Este é um “Barusco”. Nos valores de hoje, com um “Barusco” a Osesp ou o TM manteriam mais de dois anos de suas atividades. Dois anos de atividade! E uns e outros achando que é na cultura que se gasta mal…

Mas o jornalismo cultural de Coelho prefere jogar para a platéia politicamente correta. E trata do assunto como se a administração de gastos na cultura fosse uma conta de soma zero, o dinheiro da Osesp significando uma centena de “Camerata Aberta”. No limite, chega a sugerir que o dinheiro gasto nestas instituições serviria para recuperar a cracolândia, fingindo não saber que o esforço de implementação do corredor cultural do centro velho lá pelos idos da década de noventa, foi exatamente uma aposta na revitalização da região. Pode ter sido uma estratégia errada, mas é desonesto agora culpar o público e as instituições pela catástrofe local.

Reitero para que fique claro: a degradação do centro histórico não é culpa de quem gosta de música clássica e pode desfrutá-la em alto nível na Sala São Paulo ou no Theatro Municipal, assim como não é culpa de quem gosta de arte visitar a Pinacoteca na Luz ou na Estação. A degradação do centro histórico tampouco é culpa das OSs que por ali gerem – agora com ainda mais dificuldades financeiras – seus espaços e atrações. Os amantes e atores das artes apenas sofrem com tal estado de coisas e, não tenham dúvidas, em 13 anos de atividades no local desconheço entre os participantes quem não adoraria ver toda aquela região central verdadeiramente recuperada.

Mas é do baixo-proselitismo engajado inverter a lógica do jogo: assim, a Osesp, a Pinacoteca, o Theatro Municipal, o Centro Cultural Banco do Brasil, e seus públicos, vítimas da má política social no local, passam a algozes. Afinal, não deixam sua finalidade – a qual precisam prestar contas rigorosas ao poder público – para atuar mais no entorno. Com a mesma lógica, esses senhores inteligentes de nossos jornais deveriam cobrar do INCOR maior engajamento no tratamento da dengue, ou do Ministério da Educação ações mais efetivas sobre a crise da água… A coisa não tem fim e, claro, decretaria definitivamente, na gestão pública, a fórmula do fracasso.

por Leandro Oliveira

Um comentário em “Ainda sobre Dinossauros

  1. Espaço de Opinião Musical
    19 de junho de 2015

    Prezado Leandro Oliveira, convidamos o senhor a conhecer nossa página e o nosso grupo. Somos um grupo de músicos (maestros, compositores, intérpretes, professores e amantes da músia) que está se organizando em prol da defesa da alta cultura musical no Brasil.

    Página pública do grupo no Facebook: https://goo.gl/EOf3QM
    Blog do Grupo: http://goo.gl/g1mC3d

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