Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Um Dinossauro na UTI

Não me incomoda a polêmica já que ela pode ser o sintoma de alguma vitalidade – e toda vitalidade é de fato muito bem-vinda quando com questões sobre cultura e arte. Ainda mais na imprensa do Brasil, onde cultura e arte suscitam, com sorte, enormes press releases… Assim, não me abstenho de ler opiniões controversas. Mas incomoda-me ler ligeirezas. E João Marcos Coelho, que é inegavelmente um jornalista bem formado, tende por vezes a ser não mais que ligeiro em seu artigo “Dinossauro na UTI” no caderno “Aliás” do Estado de São Paulo deste domingo.

A coisa inicia por decretar a crise da Filarmônica de Berlim, o que é uma enormidade em todos os níveis. Calcado no argumento absolutamente falacioso de que a prorrogação por um ano do anúncio de seu novo chefe é sinal de que “seu modelo já era”, João Marcos comete um artigo com alguns pequenos absurdos retóricos e erros de avaliação imperdoáveis.

Antes de tudo: a Filarmônica de Berlim é a orquestra de grande porte que mais assumiu riscos no último decênio e estes riscos a fizeram poder alçar-se como benchmarking para diversos campos de inovação no mercado clássico. Seu modelo, longe de “ter sido”, segue: é a orquestra que entrou de forma mais extraordinária no ambiente digital contando hoje com 6 milhões de visitantes únicos em seu site, mais de 250 gravações, canal de Youtube com quase 100.000 seguidores, mais de 735.000 seguidores no Facebook, 88.000 no Twitter e – pasmem senhores – 3.5 milhões de horas veiculadas por seu site.

Além disso, a Filarmônica de Berlim extrapolou nos últimos anos – de forma a mais radical, para o passado e o futuro – o repertório tradicional (esse que João Marcos acha que deveria sair das salas de concerto do Brasil) com maleabilidade única e hoje é capaz de encarar J. S. Bach e Magnus Lindberg com desenvoltura imbatível. E seu público presencial ou virtual aplaude ambos, entusiasticamente.

Mas para João Marcos, o fato da orquestra decidir prudentemente por mais um ano de testes entre alguns maestros (batuteiros, segundo ele) antes de decidir que passo tomar, é o sinal do fim de um modelo… E dali parte numa tosca tautologia: a Filarmônica, sendo o terror que é, não deve seguir como referência para nossas instituições.

Senhoras e senhores, avisem ao público de concertos de todo mundo que a orquestra sinfônica dos sonhos não está em Berlim, mas na cabeça privilegiada deste nobre senhor, João Marcos Coelho.

Haja paciência!

Nas redes sociais a grita foi grande. Mas o autor conseguiu sua pequena polêmica, mais uma, num arrazoado de argumentos insólitos e falsas perplexidades – curiosamente, muito mal-escrito. Ao final, fica o gosto ruim de termos no Estadão um crítico de música que defende cortes nas verbas de instituições musicais brasileiras (em suas palavras, instituições do gênero são caras e gastam mal), que considera a tradição musical clássica dispensável no Brasil (sequer devendo ser ensinadas aos jovens), que injustamente acha estar o país na senzala musical das Américas, que ignora deliberadamente todos esforços educativos e sociais de nossas instituições apenas para encobrir sua ignorância com frases de efeito…

Vladimir Horowitz quando perguntado sobre a “crise do piano” responde sorridente: não há qualquer crise com o piano; a crise é dos compositores. Aqui está. Segundo o título, as orquestra são Dinossauros na UTI. Pelo texto de João Marcos, na UTI deveriam estar nossos comentadores musicais dos grandes veículos de imprensa: desatualizados, mal-humorados e cheios de respostas fáceis e erradas para problemas difíceis. São seres extintos há muito tempo.

por Leandro Oliveira

Um comentário em “Um Dinossauro na UTI

  1. Espaço de Opinião Musical
    15 de junho de 2015

    “Dinossauros na UTI” – Uma Resposta
    11 de junho de 2015 às 17:34
    Manifestamos através desta carta nossa indignação e perplexidade diantedo artigo publicado no dia 30 de maio de 2015, no jornal O Estado deSão Paulo pelo jornalista João Marcos Coelho, intitulado “Dinossauros na UTI”. http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,dinossauros-na-uti,1697184

    No artigo João Marcos Coelho questionou a “utilidade” das orquestras sinfônicas no cenário social contemporâneo, alegando a necessidade de elas saírem de uma suposta “redoma” e respirarem a “realidade social e cultural queas rodeia”. Ora, ninguém contesta que existem cidadãos com limitado acesso aos meios de educação, o que os afasta de algumas atividades culturais. Porém este fato tem servido para que alguns, inflamados de pensamento“politicamente correto”, façam da existência dos desfavorecidos uma alavanca de manipulação política.

    Ao dizer que “as orquestras vivem em uma redoma” o articulista nega a existência e o valor das ações de vários setores da sociedade envolvidos na criação de programas culturais inclusivos, nos quais ocorrem a formação de novos artistas, de públicos, de patrocinadores — todos esses cidadãos que atuam e frequentam as salas de concerto, os teatros e outros espaços. Não é alegando que “se deve respirar a realidade social e cultural que rodeia as orquestras” que se corrigirá a distância cultural entre as classes, mas sim oferecendo-se os meios – pela educação integral, de qualidade e sem ideologias — para todos. Ainda sobre este ponto é relevante citar a entrevista de Cláudia Toni (Revista Concerto, junho de 2015), na qual ela se refere à Conferência MultiOrquestra como uma iniciativa que possibilitará o diálogo entre produtores culturais e artistas. Tratar-se-ão dos importantes desafios impostos neste século para as orquestras e para o crescimento da música erudita no país.

    No entanto o jornalista prefere referir-se às orquestras como “dinossauros na UTI” e, citando Robin Maconie, dizer que o modelo adotado pela Filarmônica de Berlim “já era”. E ataca a formação de nossos músicos com o argumento de que “não dá para continuar formando músicos para tocar o repertório do passado; e ter como meta pegar uma beiradinha na soleira da Casa Grande (sic) da vida musical europeia”. Nitidamente vê-se aqui um discurso ideológico anacrônico e superficial (para não dizer preconceituoso), que é capaz de prejudicar o sacrificado trabalho de formação ede fomento cultural das instituições e dos grupos de música erudita espalhados pelo Brasil.

    Negando o valor do repertório clássico e olhando apenas para a música atual não se granjeará melhores resultados musicais, tampouco estaremos mais alinhados com a contemporaneidade. Isso se dará, sobretudo, valorizando nossos compositores consagrados (Villa Lobos, Guarnieri e tantos outros) e buscando alternativas aos processos composicionais artificiosos e esgotados, de forma que a música moderna chegue a todos os ouvidos e não apenas aos “seletos”ouvidos dos vanguardistas — cuja estética hostil tem sido rejeitada pelo público.

    O artigo de João Marcos Coelho presta portanto um desserviço à coletividade, e somente desestimula o surgimento de novos espectadores, de novos artistas e de possíveis patrocinadores. Nós, ao invés disso, gostaríamos de dar reconhecimento e destaque a tantos projetos que com sucesso têm transformado a realidade cultural, tais como as orquestras de Jundiaí,Campinas, Ribeirão Preto, a Ópera Curta e Ópera Minaz, a Orquestra Filarmônica do SENAI, a Bachiana SESI, a Orquestra de Heliópolis, São Caetano, Guarulhos (só para citar alguns exemplos do Sudeste), enfim, projetos educacionais, culturais e sociais que levam a música de concerto e a alta cultura para o interior do país, sempre com a presença de grande público.

    A arte não pode ser patrulhada. Coloquemos questões e disputemos novos espaços e meios de criação e execução sem abandonar aquilo que consagra a arte ao longo do tempo: a tradição. Apoiemos a criação de mais parcerias entre o setor público e o privado, e que cresça o número de pessoas em condições de abraçar as orquestras e conjuntos de nosso país.

    As orquestras brasileiras não receberam um “banho de loja”, como debocha o colunista, elas estão buscando inserção no cotidiano das pessoas, interagindo com os valores sociais e com as novas realidades deste século. Não, as orquestras não podem abandonar os poucos teatros e as salas de concerto deque dispõem, como propôs o jornalista. Ainda mais quando observamos em toda parte os espaços culturais sendo cada vez mais ocupados por artistas de música de massa, os quais recebem quantias vultosas do dinheiro destinado ao fomento cultural mesmo tendo carreiras muito bem estabelecidas pela indústria do entretenimento.

    Protestamos ainda que o referido jornalista associe a Orquestra Filarmônica de Berlim com o nazismo, alegando que a orquestra teria sido oprincipal instrumento de propaganda do regime de Hitler. É necessário lembrar que a fundação da Filarmônica de Berlim foi em 1º de maio de 1882, e o nazismo (nacional-socialismo) foi adotado na Alemanha apenas entre 1933 e 1945. Portanto uma instituição que completou recentemente 133 anos ter a sua história assim reduzida é, no mínimo, um ato de má fé do articulista e um desrespeito à tradição musical alemã. Da mesma forma, desmerecer o maestro Christian Thielemann acusando-o de antissemita — sem comprovar tal acusação e sem informar suas fontes —, apenas contribui para a desinformação do público e para o assassinatode reputações, fato que vem se tornando epidêmico na imprensa brasileira ultimamente.

    Repudiamos o texto pela infeliz declaração: “Queiramos ou não, estamos na senzala (sic) das Américas. (…) Mas erramos ao insistir emcompetir com os modelos europeus, batê-los no campo deles, e com as regras deles” — que tripudia com os jovens músicos e desestimula aqueles que acertadamente buscam aperfeiçoamento das técnicas de seus respectivos instrumentos em grandes centros musicais, como Berlim, Viena e outras cidades. O músico brasileiro é tão bom e capaz como qualquer músico das grandes nações.

    Reiteramos que é necessário executar o repertório do passado, tão achincalhado pelo jornalista como “música de museu”. Afinal, o que será que o jornalista propõe? Que o jovem brasileiro se coloque no universo musical executando apenas obras de autores nacionais pautadas por teorias vanguardistas (e, diga-se de passagem, teorias europeias)? Digamos sem rodeios: tentar atacar o repertório tradicional e até mesmo a existência das orquestras sinfônicas com a acusação de serem caras e elitistas é apenas um lamentável preconceito ideológico, que tem como fundo a frustração pela incapacidade da arte moderna revolucionária de convencer artisticamente, exceto a uma elite intelectual.

    Esses são apenas alguns dos argumentos pelos quais repudiamos veementemente o artigo, que repetimos, presta um desserviço à cultura brasileira.

    Atenciosamente,

    Camilo Calandreli – Cantor lírico
    Marcos de Menezes – Maestro e compositor
    Thomaz Ferreira Martins – Maestro da Orquestra Filarmônica SENAI-SP
    Meri Angélica Harakava – Conservatório Musical Brooklin Paulista
    Dante Mantovani – Maestro e doutor.
    Hélder Araújo – Mestre, doutor, pianista e professor
    Tamyres Fábio – Violinista
    Davi Valukas – Músico e poeta

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Publicado às 1 de junho de 2015 por em falando de música, OBSERVATORIO e marcado , , .

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