Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Um lamento pelo Nepal

Em uma das últimas cenas de “Blade Runner” um dos replicantes deixa escapar uma pomba branca e morre. Suas últimas palavras ecoarão pela história do cinema

I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque ardendo no ombro de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Estive no Nepal em 1999. Lembro de uma cobra em torno ao pescoço em Baakhtapur, lembro do doce de gosto curioso oferecido por uma digna senhora de mãos enrugadas em Kathmandu. Lembro que era ocasião da festa das luzes e a cidade transtornava em combinações pouco estóicas de cores primárias.

Lembro ter abandonado o país deprimido. Sim, abandonei o Nepal como abandonei a Índia: o sentimento de estar em fuga era mais que evidente. A bem da verdade não consegui com otantos amigos queridos ficar incólume à tanta pobreza e dificuldades. Nada entre as belezas estonteantes do lugar, sua arquitetura, sua rotina de fé, nada me fazia relaxar quanto as dificuldades de toda aquela gente. Percebi que não sou um bom turista, assim como não seria um bom antropólogo. A volta antecipada à Paris – que à ocasião pareceu a meus amigos puro esnobismo -, percebi com tempo ser mera covardia, uma espécie curiosa de pena de si que nada tinha de altruismo quanto a dor da gente oriental, mas de meu puro e impotente sentimento de terror.

Agora com a notícia do tremendo terremoto com mais de dois mortos, não pude deixar de tentar encontrar algum registro de minhas passagens por lá. Deveria, talvez, postá-la incólume no Instagram? De algum modo não foi surpresa dar-me conta de não ter qualquer registro da passagem por lá. De alguma forma fico mais confortável assim. O que foi importante – uma cobra, um doce, as mãos enrugadas de uma senhora sorridente – estarão comigo até a hora de morrer. Tal como o replicante Roy Batty diz a Deckard eu digo a mim mesmo, melancolicamente, ter visto por lá coisas que talvez nem eu mesmo imaginasse.

Que a terra seja leve a todos os que ali padeceram, que Deus ajude a todos os necessitados.

por Leandro Oliveira

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Publicado em 26 de abril de 2015 por em Uncategorized.

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