Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Voilá mon coeur – a hora e a vez de Leonilson

Leio que Carlos Nader foi o vencedor pelo segundo ano consecutivo do Festival “É Tudo Verdade”, o mais prestigioso prêmio de crítica para documentários do Brasil. Seu “A Paixão de JL” é sobre o artista plástico José Leonilson.

Coincidentemte, Leonilson tem tomado parte de minhas leitura recentes. Agora na Páscoa pude ler, no belíssimo catálogo produzido pela Pinacoteca de São Paulo por conta de sua não menos bela exposição ano passado, uma extraordinária entrevista concedida a Adriano Pedrosa – extraordinária pelo acuro, abrangência e a frutífera capacidade de provocação entre entrevistador e entrevistado.

Muito material de interesse é ainda apresentado no site “Projeto Leonilson“, com textos do mesmo Adriano, além de Lisette Lagnado e Tadeu Chiarelli. Um bom guia à obra de JL.

O que tem me impressionado em tantas leituras é o contraste entre a delicadeza de sua obra e o que parece ser sua personalidade forte, sua inteligência ferina. Leonilson foi uma figura certamente poderosa, de muito humor, mau-humor e absoluta consciência de sua arte. Sobre a força de sua obra não pode restar dúvidas: pessoalmente preciso depor que sua exposição me produziu o raro e curioso efeito de, após anos de crise criativa, querer voltar a compor – e reconheço que de algum modo a primeira de minhas Canções Alemãs, “Litanei”, deveria ser dedicada a ele.

Evidentemente, por ora não tenho capacidade de realizar resenha ou críticas de seu trabalho, mas registro a felicidade pelas coincidências entre minhas descobertas pessoais e a premiação pública do “É Tudo Verdade”. É o reconhecimento a dois queridos conhecidos, Carlos Nader e Leonilson.

Termino com Adriano Pedrosa que sintetizando uma espécie de “ética” da obra de Leonilson não deixa de descrever uma petição de princípios artístico no qual, digamos tudo?, no qual de algum modo me reconheço (na íntegra aqui):

Escrita a morte do sujeito e a do autor (algo que na produção artística só encontrará reflexos cabais nos anos oitenta), o que resta ao espírito amoroso? A resposta do Leonilson atravessa e leva consigo o coração – o ouro do artista é, afinal, amar bastante -, com toda a ambiguidade que lhe é tão cara. Em Voilà mon coeur, ele (autor-coração-trabalho) é oferecido não somente a seu proprietário, mas ao espectador também: “eis meu coração,” anuncia o título. Mas numa sutil dialética que convida e nega revelação e descobrimento, é só no verso do trabalho que, por aguda ironia do artista, repousa a informação: “ele lhe pertence.” Pequeno objeto de cristal e ouro, frágil e precioso, o espectador pode mesmo estilhaçá-lo, e aí residem os perigos do expor-se ao público. Aqui, o irracional espírito amoroso persiste e, ainda que por detrás de finos ardis, termina por se entregar. Entre a servidão voluntária e a perversa inocência, ele afirma: O que você quiser, o que você desejar, eu estarei aqui, pronto para servi-lo. Por fim, o coração, como todas as outras coisas no mundo, aponta para a morte. Esse pode ser o leitmotiv da obra, mas na cadeia infinita de metáforas, a morte é sempre o significante último.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 21 de abril de 2015 por em artes plásticas, cinema e marcado , , , , , .

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