Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Le Corbusier – estetismo ou fascismo?

O projeto urbanístico de Le Corbusier para o Rio de Janeiro: um grande minhocão cortando toda a cidade. Que importa se pessoas moram ali, não é mesmo?

O projeto urbanístico de Le Corbusier para o Rio de Janeiro: um grande minhocão cortando toda a cidade. Que importa se pessoas moram ali, não é mesmo?

Uma inquietação recorrente – meus amigos próximos sabem – é entender como podem os estetas serem amorais. Outro dia mesmo me perguntaram sobre atores americanos que apoiavam Hugo Cháves, e o papo rapidamente poderia ter descambado para maestros e compositores que apoiavam Hitler, escritores e poetas que apoiavam Mussolini, cineastas que apoiavam o general Golbery. Somados aos tantos entre nós – atores, maestros, compositores, escritores, poetas e cineastas – que amam Fidel Castro, a situação segue a causar perplexidades. Como podem artistas, que entre nós no Ocidente teriam a premissa de sua profissão na sensibilidade aguçada do mundo e a liberdade individual para expressão desta sensibilidade, como podem, ia dizendo, afeiçoarem-se a ditadores ou a ideologias e posturas ditatoriais?

Não faltam estudos de caso detalhados, e acabam de sair dois livros sobre o, entre nós intocável, Le Corbusier. “Le Corbusier – un fascisme français” (Albin Michel, 2015) de Xavier de Jarcy e “Un Corbusier” (Seuil, 2015) de François Chaslin, ambos reforçam o estudo do controverso urbanista e arquiteto nestes termos, seja demonstrando sua relação com o Partido Revolucionário Fascista ou desvelando artigos praticamente inéditos de teor anti-semita, escritos pelo arquiteto na década de vinte. Chaslin confirma que Corbusier “esteve ativo durante 20 anos em grupos com uma ideologia muito clara” mas isso “segue sendo escondido” do público. Para ler uma matéria completa do lançamento dos livros e a celeuma que vêm causando, um artigo em inglês pode ser acessado clicando aqui.

A coisa toda surge contemporaneamente à duas exposições em memória aos cinquenta anos de sua morte. Uma delas é promovida pela Fundação, que leva adiante a pesquisa e divulgação de sua obra (e curiosamente, diante das evidências, segue negando o vínculo do artista com tais ideologias). A outra, ao que parece mais impressionante, pelo Centre Georges Pompidou.

O leitor de Ocidentalismo.com já passou pelo assunto. Reverberamos, ao lado de nossa antiga parceira, a Revista Dicta & Contradicta, o extraordinário ensaio “O Arquiteto como um Totalitário” de Janeiro do ano passado, escrito pelo brilhante ensaista e psiquiatra inglês Theodore Dalrymple. Dalrymple asserta: Le Corbusier foi para a arquitetura o que Pol Pot foi para a reforma social (no original aqui, e traduzido para o português aqui). A tese é intrigante pois tenta demonstrar que a questão de sua ideologia não seria meramente ética, mas também estética. Seus projetos arquitetônicos e urbanísticos seriam a expressão de uma mentalidade despótica ou, por que não?, fascistóide, que pretende, ao limite, negar às pessoas a liberdade para suas escolhas. Como vem de um psiquiatra, o ensaio fica ainda mais estimulante: há muito considero que algumas formas de engajamento estão mais para desvio de psiquê que efetivamente convicção política.

O tema é quente e os livros de Jarcy e Chaslin, até o momento apenas em françês, parecem ser um bom começo. Para adquirí-los, clique aqui e aqui.

por Leandro Oliveira

Um comentário em “Le Corbusier – estetismo ou fascismo?

  1. Gilmar Antonio dos Santos
    19 de maio de 2015

    Lembrei desse seu post ao ler a matéria publicada na revista Época: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/03/bdemolicao-de-predios-historicosb-foi-motivada-por-arquitetos-modernistas.html É a postura fascista de querer destruir tudo que lhe é contrário.

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