Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Alguma luz sobre o financiamento da arte

Se o segredo para desagradar é dizer tudo, ao que parece Silas Martí conseguiu algo do gênero em sua matéria sobre a economia do mercado da arte de São Paulo. Minto: ele não precisou dizer tudo. Bastou lançar luz à parte pública do mercado da SP-Arte. Repito: à parte pública, ou seja, àquela que tem por suporte a lei federal de incentivo (a lei Rouanet) e o benefício de ICMS por parte do governo do estado de SP.

Quando falamos de Rouanet, tratamos de impostos que são transformados em financiamento direto. O interesse público da matéria é, pois, evidente. Ainda, um segundo elemento de pertinência para os amantes e gestores de arte está já na chamada: a SP-Arte, ao fazer a balança de seu financiamento pender este ano ainda mais para o dinheiro público federal, aponta inequivocamente algum tipo crise, mesmo que potencial ou conjuntural. Projetos economicamente viáveis que escolhem dinheiro de impostos para sua realização estão ou planejando mal ou se valendo de muletas pouco inteligentes a médio prazo.

Nosso debate público a respeito é naturalmente obliterado e, assim, pouco teríamos a desdobrar. Mas causou espécie a reação à matéria. No dia seguinte, Silas teve que vir a público justificar não os termos ou veracidade de sua apuração mas – pasmem! – seus laços afetivos com o assunto, seu amor à arte. Ao que parece, fora acusado de, como se diz no Rio de Janeiro, jogar contra.

Passamos na primeira fase do Ocidentalismo.com por algo semelhante quando fomos acusados de detestar cinema por não acreditarmos que a solução para o Cine Belas-Artes era o tombamento. À ocasião, a opinião dos colaboradores sequer era unânime, mas alguns artigos como o meu, que defendiam explicitamente seu fechamento, serviram de mote para enfrentarmos na web “críticas” as mais curiosas. Seríamos “direitistas” ou “neo-liberais”, por imaginar que o mercado possa regular, ao menos em parte, as ações do universo da cultura.

E claro, o que nos movia era o amor ao Cinema: exatamente por querer um espaço de qualidade e infraestrutura para os títulos clássicos, não era possível concordar com o engessamento de um empreendimento com escadas inseguras, sonorização precária e, digamos tudo, cheiro de mofo… quem precisa disso nos dias de hoje? Sim, de uma maneira pouco óbvia, típica de apaixonados, sigo acreditando que amava mais a Sétima Arte que todos aqueles que à época manifestaram-se fechando a rua da Consolação.

Permito-me, no ensejo, senão corrigir, pelo menos tornar mais preciso uma passagem do Silas. Ao final de seu artigo-resposta, ele comenta que o fato de amar a arte não o exime da responsabilidade de apontar suas mazelas. Eu diria que a coisa deve ser recolocada. É exatamente por amar a arte que não apenas ele mas todos devemos apontar os vícios de suas engrenagens. Vícios que são não apenas de financiamento, mas de julgamento e fruição. É o amor que faz desejar que a arte seja apreciada em termos economicamente sustentáveis, mais dignos e inteligentes. Se o preço é o litígio com os que da arte se servem, é um preço justo. Sim, daquilo que amamos devemos dizer tudo, devemos dizê-lo incessante, reiterada e generosamente.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 18 de abril de 2015 por em artes plásticas, gestão cultural e marcado , , .

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