Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

As artes do Petrolão

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As de Heitor dos Prazeres (1898 -1966) e a estética de Renato Duque

Renato Duque foi levado em cana e teve consigo apreendidas 131 obras de arte, numa coleção que contava com Guignard, Djanira e Heitor dos Prazeres. Algumas semanas atrás, outros operadores do esquema do Petrolão contavam em suas casas com Dalí, Nelson Leirner, Pedro Motta, Amilcar de Castro, Daniel Senise, Miguel Rio Branco, Romero Brito ou Vik Muniz (numa boa demonstração de ecletismo), entre outras enormidades.

É fácil, e talvez mais provável, imaginar tratar-se de um método de lavagem de dinheiro. Mas gosto de pensar nessas figuras curiosas que assaltaram nossa república cultivando o gosto sofisticado de um Guignard ou Senise após um dia complicado de negociatas, colocando o uísque no copo e Arvo Pärt no CD, para relaxar. E, diante das telas adquiridas, terem suas pequenas epifanias à luz da lua cheia.

Hannah Arendt faz a devida reflexão no seu extraordinário “Eichmann em Jerusalém” e não precisamos retomar a tese. Somos todos Homens cindidos e isso deveria servir de lição de humildade para meus amigos de direita que leem “A Divina Comédia” no original, e meus amigos de esquerda virtuoses em desconstruir textos e obras de arte: não deveriam cultivar essa triste ilusão, a de que uma educação privilegiada ou o gosto sofisticado faz as pessoas serem necessariamente melhores.

Nunca tendo sido bons selvagens, nos educamos hoje para o revés do equilíbrio ciceroniano – o Homem Prudente, aquele que o grande mestre sugeria ser o resultado de uma educação desejável, alguém a cultivar a boa medida das coisas. Não estamos preocupados com o equilíbrio entre a vontade, o gosto, as palavras e a ação. Hoje nos formamos para conviver esquizóides, cindidos entre nossa ética e nossa estética, entre o conhecimento de si e a atuação no mundo. Já que comunistas amam católicos, psolistas amam herdeiras, anarquistas-black-block amam a Dilma, por que não, Renato Duque amar Guignard?

Diverte imaginar Duque, com aquela cara de homem do aparelho governista, o chefe de um gerente que devolverá mais de cem milhões de reais roubados da Petrobrás, Renato Duque pontificando sobre o colorido da Djanira, ou a luminosidade de Heitor dos Prazeres…

por Leandro Oliveira

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