Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

O 15 de março – algumas perplexidades

Falamos de política no Ocidentalismo.com apenas em casos especiais. E como todos leitores sabem, o domingo dia 15 de março de 2015 foi uma data especial. Ademais, minha formação em teoria da comunicação exige sempre comentários pertinentes ao assunto. Então encaremos em quatro etapas, as agruras do dia 15:

1) Algo que impressionou nas manifestações por todo o Brasil neste 15 de março foi a falta de agilidade por parte das oposições em reconhecer a importância da coisa e entender uma forma inteligente de abordagem. Qualquer leitor de conjuntura mais ou menos antenado teria antecipado a grandeza do momento e de algum modo mais contundente apoiado por diversos meios o evento. Talvez não tão curiosamente assim, Aécio Neves preferiu ver no que ia dar para depois dizer a que vinha. Assim, não se comunica como líder incontestável que é, sobretudo aquele galvanizado por 50 milhões de votos há escassos seis meses. Foi levado à rebote.

A internet é uma variável relativamente recente no sistema político e por isso ainda não sabemos seu papel na solidificação das instituições. Sabemos, e podemos ver ontem, que pela sua agilidade e capilaridade, vem dando um baile em forças políticas de todo mundo exatamente por permitir ações de alto impacto como a que vimos.

2) E se a análise de conjuntura das oposições e uso das mídias sociais nunca foram essa Coca-Cola toda, a bem da justiça sejamos francos: pela primeira vez nos últimos doze anos, o pólo governista está batendo cabeça. Se havia dúvidas, a entrevista coletiva de Cardoso e Rosseto as sanou. A coisa foi tão estranha que não pude acreditar a princípio tratar-se de algo que não jogada ensaiada – uma dinâmica “good cop” & “bad cop”, trazida curiosamente para o discurso político.

Se a coisa fosse combinada seria uma inovação petista, sobretudo pois o que qualquer técnico de comunicação sabe que numa hora como aquela, o público (de todos os lados) esperaria demonstração de força. Haveria força no mea culpa, haveria força na beligerância. Mas não há força na incoerência e à análise do discurso de ambos, cada um partindo de um diagnóstico e apontando para um caminho distinto, deve-se somar a péssima postura corporal dos entrevistados: o resultado é o misto de atordoamento e arrogância que deflagrou o novo panelaço.

Talvez Rosseto tenha entregado para a militância alguma palavras-chave já desbotadas (elites, golpe, truculência, direita, etc), o que me permite imaginar que o recrudescimento da polarização seja uma estratégia deliberada. Mas antes de combinar com os russos, deveria combinar com Cardozo. De qualquer modo, questiono a pertinência da estratégia: polarizar com 2 milhões de pessoas que vão às ruas espontaneamente, talvez seja algo de parca prudência. Mas a Vaidade, que é irmã da Loucura, há muito dá as cartas no Planalto. E desde então, as hostes governistas parecem querer apenas entoar mecanicamente o mantra de invocação dessa deusa infalível.

3) Ainda sobre oposição: ninguém duvida que está entre os jovens a solução para ação e reação nestes tempos de internet. Para demonstrar o desterro dos opositores quanto a sua representação política, recorro especialmente a um dos grupos de oposição, o Onda Azul – e recorro a ele pois fui um de seus primeiros entusiastas.

O Onda Azul auto-proclama “levar a voz das ruas para onde a coisa acontece”. Ou seja, levar a indignação da sociedade para os partidos. A idéia é mais que boa, ótima. Mas então, onde esteve o Onda Azul no dia 15 de março?

Em lugar nenhum. Decidiu, um mês antes da coisa ganhar corpo, fingir que nada aconteceria e fincou posição. Pior, achou por bem tratar o dia 15, na semana do evento, como mero movimento antropológico, senão de golpistas.. Para ficar bem entre os “autoritários do bem”, insultou por precaução mais de dois milhões de insatisfeitos com o governo, tudo justificado por uma pretensa “pauta propositiva” que não onde está, e qual a pertinência, ninguém sabe.

Podemos perdoar a covardia da abstinência, podemos perdoar a falta de inteligência para a percepção de conjunturas políticas. Causa espécie, no entanto, a agenda do grupo, expressa na entrevista para o jornal Valor e cujo teor poderia vir de qualquer desses movimentos que servem de linha auxiliar ao governo.

O Onda Azul esconde pelo argumento de uma pauta propositiva a inocuidade da boa e velha comodidade de gabinete na qual a oposição pastou nos últimos 12 anos. Ora, para comodidade de gabinete, convenhamos, o PSDB não precisa de jovens com pouco mais de trinta anos. Arrisco dizer que dos jovens os partidos de oposição esperam agilidade, ousadia e mesmo a perspicácia dos que pouco tem a perder. Num universo político como o brasileiro, nada seria mais bem-vindo.

A turma de adolescentes do “Vem pra Rua” sabe bem disso, mas por princípio é apartidário. Para um grupo que pretende trazer a voz das ruas para para o seio dos partidos, o Onda Azul parece assim estar muito à vontade entre caciques e pouco disposto à escuta de quem através dele poderia de fato se expressar. Coragem e impetuosidade, inclusive para o erro, são talvez as únicas qualidades da juventude e o Onda Azul, que é em qualquer termo um grupo jovem de oposição, resumiu sua coragem apenas para tratar por facínoras quem está esgotado com as coisas como estão.

A sorte de quem foi é que em qualquer medida, a manifestação com mais de dois milhões de pessoas foi um sucesso para todas as pessoas direitas, a despeito do lastro ideológico. Fracasso fosse, o Onda Azul estaria, junto com os governistas, a cantar vitória.

Com uma juventude oposicionista dessas, quem precisa de governismo?

4) Sobre a militância petista, uma curiosidade: deram para implicar com a camisa da seleção. Imagino que, acostumados pelo jabaculê de bonés, marmitas e caixinha de R$35,00 das próprias manifestações, pensassem da necessidade de distribuição de uniformes outros das cores da bandeira do Brasil. Sabe como é, a espontaneidade do povo exige o decoro da uniformidade! O paradoxo que colocam, ingênuo em todos os termos – o que apenas demonstra o grau de acefalia de suas estratégias -, é que não há de haver pedido por honestidade com a camisa da CBF… Como se a CBF, a instituição de cartolas, passasse pela cabeça de alguém que se vestiu na Paulista de verde e amarelo!

A ingenuidade está em imaginar que alguém está preocupado com esse (novo) tipo de patrulha. A comunicação como puro diversionismo reverbera nas baixas esferas a desconexão que assola o alto clero. Os posts quanto ao “paradoxo da CBF” seguem para a pequena história de nossa época como registro da histeria tola que parte da militância governista costumou cultivar. Mas se antes a tropa dominava as redes sociais por mera pressão numérica, perdem o trem ao deixar de perceber que a população indignada perdeu o medo do PT. O bulling, a única tática que dominam, hoje tem pouca eficácia

Se o governismo quer virar o jogo, precisa voltar para as pranchetas e reeducar a tropa. Mas acho que agora, a tática das altas esferas é o cada um por si. A turba está perdida ecoando antigos mandamentos. E as ruas nadam de braçada.

Melhor para o Brasil.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 16 de março de 2015 por em Explorações, meio e mensagem e marcado , , .

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