Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

O Carnaval da ditadura e o câncer de Oliver Sacks

Os dois assuntos culturais do Carnaval:

1) sobre o patrocínio da Guiné-Equatorial ao samba enredo da Beija-Flor de Nilópolis, que terminou por ser a vencedora de carioca de 2015… Todos cariocas sabemos, mesmo que por apenas ouvir falar, da promiscuidade financeira das escolas de samba – terreno de bicheiros, traficantes e tutti quanti. De algum modo, no entanto, o fato de tratarmos de uma ditadura estrangeira mexeu com os brios da moçada. Um chauvinismo meio bizarro, que resumido soa mais ou menos assim: tudo bem a contravenção desde que seja entre os nossos.

2) Nelson Ascher faz em seu perfil no Facebook uma boa reflexão sobre “a morte segundo Oliver Sacks”, a partir do texto do neurocientista que, viralizado na internet ao final da semana passada, comentava de seu diagnóstico de doente terminal de câncer. A melhor parte a meu ver é esta:

Embora não se coloque explicitamente assim, o artigo todo me parece ser uma espécie de grande lição de moral, ou seja, um alto membro do sacerdócio intelectual progressista nos diz, ou melhor, nos instrui como é que devemos nos comportar diante daquilo que há de mais absolutamente pessoal, irrevogável, apavorante, inegociável e, em última instância, irrespondível – uma “coisa” para a qual não há instrução nem etiqueta, especialmente se você não acredita em nenhum deus, em nenhuma religião, em nenhum acerto posterior de contas.

No post seguinte, Ascher nos presenteia com a tradução de um poema absolutamente extraordinário do húngaro György Petri (1943 – 2000), que segue:

QUE PENA

Que pena morrer justo quando
as coisas vinham melhorando,
mas não faz mal, reunindo em breve
chuva estival, restos de neve,
ramas com cheiro de aguardente
no outono, irei, sem que o lamente,
mesclar-me às folhas, água, argila :
a encosta aguarda-me tranquila ;
quanto ainda falta e estarei junto
de Lilla e Maya é o que pergunto.
(Eu desceria à cova pronta-,
mente, mas quem vai tomar conta
de Mari ou dar-lhe flor, assim
que os vermes nutram-se de mim?)

Tradução de Nelson Ascher.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 23 de fevereiro de 2015 por em cultura e ética e marcado , , , .

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