Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

A morte de Carr e a Morte no Facebook

David Carr (1956 - 2015) na Flip 2014

David Carr (1956 – 2015) na Flip 2014

Sempre é ligeiramente desconcertante conhecer alguém pelo obituário. Há uma máxima (acho que do Paulo Francis) a qual recorro quando quero parecer arrogante entre amigos – apenas entre os muito amigos finjo acreditar no que falo – que é dizer “se eu não conheço, não deve ser bom”. Não sendo um completo desconhecido, de algum modo me são completamente estranhos os textos de David Carr; e quanto mais me interesso por eles, agora, tardiamente, após sua morte, mais me convenço que perdi alguma coisa importante.

Parte do interesse foi renovado pelo texto de Ricardo Mioto para a Folha de São Paulo de hoje (a propósito, sempre que alguém cita Thomas Sowell na grande imprensa, eu fico quase emocionado). Entendi que se tratava de um sujeito independente, intelectualmente corajoso e, sobretudo, antenado com o que importa. E se você me pergunta “o que importa?” respondo, sem titubear, “a realidade”. É a realidade que falta a maior parte de nossos intelectuais públicos, muito preocupados com suas provocações conceituais ou suas idéias desprovidas de qualquer compromisso com o que o próprio Sowell chama de “accountability”. É fácil fazer como nossos colunistas de jornal, céleres em pontificar sobre como deve ser o mundo ou como devem agir as pessoas no mundo. O difícil é vê-los assumir que precisam prestar contas daquilo que dizem, rever suas próprias convicções ou preconceitos à luz das coisas como elas são e se comportam na complexa tensão de forças que compõem a realidade. A referência a Thomas Sowell (que nunca deixa de chamar atenção para esse estado de coisas) por parte de Mioto parece ser de absoluta pertinência já que, ao que parece, Carr raramente caiu neste canto de sereia.

Estou agora buscando as análises de Carr para poder conversar ansiosamente – temos todos um quê de Chico Xavier quando acessamos o Google – com este sujeito brilhante que nos deixou precocemente. Encontrei um vídeo com um discurso seu feito para os graduandos em jornalismo pela UC Berkeley de 2014. Aos fluentes em inglês interessados em jornalismo, um must see.

 

****

Se somos todos um pouco médiuns diante do Google, não deixamos de ser visitantes de um cemitério quando acessamos o Facebook. Sempre pensei em um pequeno conto de ficção científica, onde alguém encontra os provedores do site alguns milênios adiante dos nossos… Que paisagem fascinante de mortos virtuais não encontrará! Que terror insuspeito este o da eternidade de nossos diários, com suas picuinhas prosaicas, as opiniões mais ou menos tolas, os amores e amizades que nos forçamos a não constranger. Penso em profissionais – antropólogos, psicólogos, romancistas, historiadores e outros especialistas digitais – mergulhando qual escafandristas no oceano de informação e abandono que um dia tudo isso se tornará e o Facebook implacavelmente seguirá preservando. Então, a nuvem, essa metáfora extraordinária para o não-lugar onde estão preservadas as informações da internet, ganhará um sentido outro, mais poético e que de algum modo se coadunará com aquele dos céus paradisíacos de nossa mitologia ocidental. Facebook fará de todos nós anjos, mas agora não no sentido do catecismo tradicional: não, não seremos seres iluminados com asinhas. Mas sim, estaremos libertos da carne e, ao menos nessa corruptela de alma que expressamos nas pequenas mensagens do dia-a-dia, estaremos finalmente e de uma vez por todas em nenhum lugar do espaço, mas em todo lugar em espírito.

Mark Zuckerberg e seus executivos se deram conta disso: afinal o seu negócio é o mesmo do empresário argentino Pepe Altstut, e decidiu lidar de modo profissional com aqueles que estando na rede social tomam a má decisão de passar desta para a melhor. Em breve, todos poderemos selecionar um inventariante para nossas contas e assim fazer de nossas passagens nessa formidável Terra, disponível como um memorial – sagradamente preservado pelo Facebook para toda a posteridade…

Que a terra nos seja leve a todos.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 14 de fevereiro de 2015 por em Amnésia Cultural, ESPECIAL, meio e mensagem e marcado , , , , , .

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