Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

“Music in the Castle of Heaven” de John Eliot Gardiner

Unknown

A despeito das dimensões de tirar o fôlego, “Music in the Castle of Heaven” é de fato um ensaio. Ensaio seguro, pois bem informado, inteligente e atualizado; mas ensaio, posto que, a despeito das referências que estão lá para quem quiser pesquisar, é pouco dado a minúcias musicológicas – importantes para os estudos objetivamente técnicos. A problematização das referências acaba ganhando uma leitura no mais das vezes exploratória e não necessariamente historiográfica do “problema” J. S. Bach.

O que quero dizer: valendo-se mais de sua impressionante sensibilidade de intérprete, o autor do livro, o maestro John Eliot Gardiner, privilegia a liberdade intelectual frente alguns temas à mera exposição das fontes ou do estado da questão quanto a descoberta de documentos históricos que seguem problematizando circunstâncias da biografia do grande mestre de Eisenach. Um exemplo, o que mais imediatamente me vem à mente, lida com a discussão sobre os estudos de Bach: era sua escola de fato boa, era Bach um aluno aplicado? São questões que seguem minuciosamente discutidas pelos musicólogos a partir de inferências como o boletim de classe, mas também a descrição do comportamento dos estudantes à época. De algum modo, a leitura de Gardiner parte de uma premissa, que se resume à conclusão: “Old Bach, Bach, the epitome of a musician who strove all life long and finally acquired the ‘Habit of Perfection,’ was a thoroughly imperfect human being.” Assim, Gardiner, privilegia que o “bewigged cantor-to-be was the third in a line of delinquent school prefects — a reformed teenage thug”. Não mais que uma hipótese, embora hipótese interessante sobretudo por lidar com um compositor cuja imagem resvala a santidade e nos permitir construir uma figura que, se não é absolutamente conclusiva ou mesmo precisa, é mais colorida que a mitologia em torno do compositor gosta de divulgar.

O livro tem outras teses, igualmente estimulantes e controversas. A mais reincidente delas: estaria não na obra instrumental mas nos Corais a mais consistente revolução da sua obra, já que marca a transição da “parochiality of the liturgical context” para uma música “that shows more and more signs of an almost limitless appeal”. Gardiner nos garante alguns longos e inspirados capítulos com análises sobre a relação do texto destas cantatas com seu engenho em música e mesmo aqueles sobre as “Paixões” e a “Missa em Si menor” não deixam de ser extensões da tese original.

O fato de privilegiar o repertório que melhor conhece poderia ser argumento para fortalecer as críticas. Mas desde o primeiro capítulo Gardiner nos mostra que estamos lidando com uma leitura pessoal das referências históricas e estética bachiana (o primeiro capítulo é a história do jovem Gardiner travando contato com o compositor) e neste sentido o ponto fraco acaba por asseverar-se um oportunismo inteligente; afinal, é sempre saboroso ouvir de um grande intérprete sua relação íntima com a grande música. E esta relação pessoal, o leitor notará, é culta e rica de pertinentes contextualizações: os capítulos sobre as influências culturais (o luteranismo e a música italiana), a importância dos ancestrais e a estrutura de guildas com a qual Bach conviveu desde sua infância, além daquele sobre os contemporâneos de Bach – que a meu ver merecia ser publicado separadamente – abrem ao interessado caminhos insuspeitos para renovação do interesse cultural desta música sempre surpreendente e necessária.

Assim, todo “senão” deve ser visto no contexto de uma obra colossal que honra sem dúvidas o gênio do objeto biografado. John Eliot Gardiner fez um trabalho monumental e de algum modo magistral. Um livro imprescindível.

****

Para os interessados em música, sugiro dois livros que estão na minha lista de desejos:

1) “Artists Under Hitler: Collaboration and Survival in Nazi Germany” de Jonathan Petropoulos (Yale University Press 2014, pp. 424) promete 10 casos de artistas que de algum modo colaboraram com o ambiente Nazista antes e durante a guerra: Walter Gropius, Paul Hindemith, Gottfried Benn, Ernst Barlach, Emil Nolde, Richard Strauss, Gustaf Gründgens, Leni Riefenstahl, Arno Breker e Albert Speer (citando de passagem Carl Orff, Elisabeth Schwarzkopf, Veit Harlan, Werner Krauss e Emil Jannings, Fritz Klimsch, Wilhelm Kreis, entre outros). Uma excelente crítica pode ser lida na Los Angeles Review of Books.

2) Claudia Dornsbusch e Stefano Paschoal traduziram “As Cantatas de Bach” de Alfred Durr, o grande editor da Neue Bach-Ausgabe. Imagino tratar-se de um aprofundamento fundamental para o livro de Gardiner, com a vantagem de estar já em português! Para mais informações, clique aqui.

por Leandro Oliveira

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