Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

As formas da beleza em “Timbuktu” de Abderrahmane Sissako

Cena de "Timbuktu" (2014) de Abderrahmane Sissako

Cena de “Timbuktu” (2014) de Abderrahmane Sissako

“O horror! O horror!” As palavras de Kurtz, o personagem de “Heart of Darkness” de Joseph Conrad, ecoaram, por vezes tomadas como proféticas, por todo o século XX, resumindo-o quando não nos ensinando de forma sintética a real dimensão de nossa tragédia. Na segunda-feira seguinte a execução pública de 21 cristãos coptas de origem egípcia, nas praias de Líbano, talvez devéssemos finalmente entender que as palavras de Conrad tenham sido premonitórias também para o século XXI. Ou, quiçá, sejam exatamente o contrário – são apenas a expressão direta e crua (por isso moderna) da nossa condição humana persistente e peremptória, neste vale de lágrimas que é a nossa existência.

Menos sobre o horror mas seu oposto, a beleza, é o indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Timbuktu” de Abderrahmane Sissako. Imagino que a obra não passe à posteridade por uma cinematografia genial, mas ao contrário, por certa singeleza de sua gramática documental e o roteiro sofisticado ao ponto da suspensão do julgamento sem que para isso resvale no caminho fácil do relativismo moral: desde o princípio sabemos inequivocamente quem são os intolerantes e os pobres coitados oprimidos naquela trama abismal.

O contexto do enredo é verídico, e refaz momentos históricos recentes da pequena comunidade muçulmana de Timbuktu, capital da região de Timbuktu no centro do Mali, patrimônio histórico da humanidade que, em pleno ambiente de guerra civil, viu-se tomada entre os anos de 2012 e 2013 por diversas facções revolucionárias, inclusive – exatamente o momento priorizado pelo roteiro – por membros da jihad local.

Como sempre, é no “como” que está a diferença. No filme, a chegada dos jihadistas corta profundamente os liames tradicionais de uma comunidade que professava sua vertente da fé islâmica. A síntese deste embate é expressa em dois momentos, no primeiro e último terço do roteiro, quando um dos chefes dos jihadistas se vê sentado diante do líder religioso local – no primeiro momento, discutindo o sentido da jihad, se algo espiritual e íntimo como advoga o clérigo local, ou político e militante como quer o chefe estrangeiro; no segundo momento, quando ambos personagens negociam os termos de um casamento forçado entre um soldado e uma jovem residente sequestrada pelas tropas através de suas divergentes leituras do Alcorão (que como toda leitura, além do contexto, fica claro, prevê para sua interpretação a ênfase em passagens determinadas).

Estas, digamos, questões teológicas, atravessam marcam o plano de fundo da rotina alterada de uma comunidade pobre assolada por combatentes igualmente pobres mas que não se equivocam no uso da força para a imposição de suas vontades. A lei da selva, é tensionada por outra, a meu ver o elemento de gênio do roteiro, de cunho mais emotivo, a lei ou as leis do enamoramento e encantamento que seguem vivas nos combatentes bárbaros. A trama ou as tramas são integradas a pequenas pinceladas de dignidade desta outra ética que é a do Belo: o soldado que se vê completamente fascinado frente à mulher casada que penteia os cabelos, a pequena tropa que não sabe o que fazer diante da música noturna e pungente que louva Alá. Somam-se ainda as cenas desta “resistência” curiosa: um soldado fuma escondido, outro dança sem música, uma mulher segue, intocada!, com roupas e comportamento desconcertantes, outra canta ao ser açoitada, crianças sem bola fingem jogar futebol (esporte aparentemente fascinante a todos, ao ponto de haver no filme uma divertida discussão entre combatentes sobre a entrega por parte do Brasil da Copa de 1998).

É nesses lampejos de beleza – não aquela beleza da transgressão, que acostumamo-nos no Ocidente a louvar como a maior delas, mas a beleza em outras de suas encarnações mais sutis, como a beleza da diferença, a beleza da forma, a beleza do jogo -, nesses lampejos, ia dizendo, é que o roteiro de Abderrahmane Sissako reserva sua força. E guardando-os delicadamente em meio à intriga da barbárie, nos ajuda a entender toda a dimensão abjeta da intolerância e seu cultivo dedicado ao horror.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 11 de fevereiro de 2015 por em cinema, Crítica e marcado , , , .

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