Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Mahler no Municipal

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Nestes dias 7 e 8 de fevereiro, a Orquestra Sinfônica Municipal realizou no Theatro Municipal de São Paulo sua segunda performance pública do ano. No programa, a nona sinfonia de Gustav Mahler (1860 – 1911), uma obra desafiadora para qualquer orquestra do mundo e claro, ainda mais desafiadora para uma formação que, há pouco mais de dois anos ainda questionava os termos mesmos de sua vocação.

Ao assumir a direção artística do Theatro Municipal, dois anos atrás, o maestro John Neschling comparou-se divertidamente ao técnico espanhol Josep Guardiola. A comparação estimula pois há evidentemente muito de coach, estrategista, avalista de elenco e escalação entre as tarefas de um maestro. Mas há algo além em alguém que tem por vocação a construção de orquestras: há também muito de gestor, de visionário, de político. E claro, de agitador, do tipo que precisa tirar com os meios disponíveis o mais convincente e entusiasmado resultado possível.

Apenas para ficar na metáfora futebolística: há técnicos que têm estrutura, dinheiro e – como no caso de Guardiola, com o prestígio do Barcelona e agora do Bayern Munich – opções quase ilimitadas de escalação. Afinal, qual jogador do mundo não gostaria de estar em um elenco campeão como aqueles? Há maestros que podem se dar o luxo de conjunturas perfeitas e, a despeito de seu talento pessoal, pouco teriam a dar a uma orquestra mediana. Zubin Mehta é o caso mais evidente: acostumado desde muito jovem a formações excelentes, não tem a aptidão necessária para transformar uma orquestra de nível médio em uma grande formação. Levanta voo apenas em condições ideais, com a Filarmônica de Berlim ou a da Israel (com bom humor). Assim, e apenas para concluir a metáfora, ao assumir a OSM, a tarefa de Neschling está mais para a do mágico Tite – hoje o único técnico capaz de fazer um elenco não mais que razoável, como o Corinthians do trienio 2010/2013, brilhar como estrelas de primeiro nível.

Cansado da metáfora fácil, recorro a história da música: ao lidar com os entraves políticos e humanos da orquestra de ópera da gigantesca metrópole que é São Paulo, Neschling poderia se comparar a Gustav Mahler – não o compositor, mas o regente e diretor, que entre 1897 e 1907 fez a revolução para a inserção na modernidade naquele do Wiener Hofoper e que, por sua conta e glória, passou a seu tempo a ser conhecido como o mais arrojado teatro de ópera da Europa.

O caso é que valendo-se de Mahler, o leitor do Estadão perderia a piada, e Neschling preferiu fazer-se entender. Tite ou Guardiola, certamente mais Mahler que Mehta, o fato é que no Brasil talvez apenas Neschling fosse capaz de, laboriosamente, encontrar com o tempo e recursos que teve, a orquestra adequada para uma nona sinfonia de Mahler antes do Carnaval (o que quer dizer, no mundo da música, logo depois das férias de fim de ano, com músicos de guarda baixa). Mais que isso, uma nona sinfonia muito mais que decente, inspirada. Se há dúvidas quanto a capacidade artística da OSM, ficou demonstrado no concerto de domingo (08/02) que trata-se de puro preconceito. Solistas perfeitos – com destaque para a primeira trompa e os líderes das madeiras – reforçaram o extraordinário sentido de conjunto que Neschling soube privilegiar, sentido de conjunto este evidente no bom equilíbrio entre os naipes (equilíbrio nervosíssimo na partitura de Mahler) e a agógica extraordinariamente flexível e de bom gosto que permitiu alguns dos mais inspirados momentos da obras (sobretudo no primeiro e último movimentos). Soma-se a isso a segurança com que as mudanças de tempo foram resolvidas, e a permanente atenção para a afinação e temos um concerto tecnicamente perfeito.

Mas ainda, artisticamente seria difícil imaginar uma versão mais madura. Neschling foi responsável por importantes ciclos Mahler no Brasil, e mostra que com a idade a digestão do texto se tornou mais orgânica, o que lhe permite agora uma dicção ultra sofisticada. Já na articulação da primeira frase do primeiro movimento havia a sutileza de um inciso troqueu (nota forte seguida de átona) vinculada a uma pequena pausa de respiração (luftpause em musiquês) que, se me permitem a erudição, pode passar como clássico para muitos mas é, na verdade, a epítome do estilo vienense. Em um mundo onde muitos são tarados pela interpretação de época, Neschling, formado por Hans Swarowsky, de família de intelectuais austríacos, é por convivência, mas também temperamento e concentração cultivada, a incarnação nativa da historische Aufführungspraxis de Gustav Mahler.

Há o que crescer? Sem dúvidas, sobretudo se a OSM seguir investindo em recursos humanos e, importante dizer, recursos materiais. Não é possível avaliar com precisão em apenas um evento, mas arrisco dizer que em parte, o timbre de parca reverberação dos tímpanos e a percussão em geral, a projeção não realmente robusta das cordas devem menos ao entusiasmo dos músicos que à qualidade de seus instrumentos.

De qualquer forma, o que se ouviu no final de semana, sem sombra de dúvidas é uma nova orquestra de repertório sinfônico – disciplinada, atenta e cuidadosa, preocupada com música de alto nível. O maestro sabia o que estava fazendo. Como sói acontecer nestes casos, a arquibancada respondeu ao final entusiasticamente – diz-se no Rio, como se fosse gol do Flamengo.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 10 de fevereiro de 2015 por em Crítica, falando de música e marcado , , .

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