Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Duas solidões

Não chamou atenção que entre os bens arrolados do empresário Eike Batista estivessem carros – ao menos seis -, alguns milhares de reais em dinheiro, computador, celular, relógios, motores de lancha, esculturas… (Atualização de 12/02: o ovo Fabergé era de mentira!).

Chamou atenção que houvesse um piano.

Fiquei a pensar no piano do Eike, um piano triste, virgem – provavelmente branco – um piano cujo destino fora traçado no momento de sua aquisição. Fiquei a pensar na triste rotina do policial a recolher bens e ter que, naquela altura da vida, fazer de improviso essa que é a das mais complexas entre as profissões, fazer de si um carregador de piano. Imaginei sua tibieza em tocar, talvez desmontar o animal, fazê-lo desajeitadamente subir em algum caminhão.

Imaginei seu destino, orfão em outro lar, com seu triste pedigree. Fiquei pensando na solidão do piano do Eike Batista e fiquei pensando se não seria o caso de chorar, pois assim como os amantes amam as mulheres, os músicos amam os instrumentos.

Esta tarde, no meu pequeno Steinway, toquei um fúnebre noturno, em memória ao piano de Eike Batista, seu piano virgem, quiçá branco…

****

Eis que na mesma semana do confisco ao piano de Eike Batista, outro herói nacional, Anderson Silva, perde pela terceira vez. Perdeu após vencer por pontos a luta que marcava seu retorno ao cage, e o fato de seu exame marcar positivo para o uso dos anabolizantes drostanolona e androsterona conflagra um dos mais melancólicos, se não a mais melancólico, final de carreira de um campeão.

Mike Tyson mordeu a orelha de Evander Holyfield, Ayrton Senna passou por um acidente fatal. Silva iniciou a série de derrotas quando na primeira luta usou de um expediente que sempre o fez muito criticado: zomba do oponente, oferece o corpo para os golpes. Caiu rápido como um raio.

Silva perdeu a segunda luta com um nocaute técnico dos mais horríveis que pudemos ver na história do UFC. Pelo menos quinze lutas são realizadas mensalmente pelos organizadores, e o fato de raramente termos notícias de uma cena tão chocante mostra o quanto foi excepcional aquela luta pelo cinturão. Não sabíamos sequer, ao final, se haveria possibilidade de retorno ao nosso campeão.

Mas houve o retorno. Nesta terceira luta, Anderson Silva decidiu burlar o jogo. Não importa se é praxe na profissão, não importa se já havia feito antes. Agora Silva ganhou perdendo, o que é a pior derrota para um ex-campeão. Para a opinião pública, ele perdeu para si mesmo.

Que maldição acometeu a Anderson Silva?

por Leandro Oliveira

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Publicado às 9 de fevereiro de 2015 por em Bobagens e marcado , .

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