Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

#MuseumSelfieday; ou, o museu como playground

“Museum Selfie Day” é o nome do experimento que as instituições de todo mundo promoveram no dia 21 de janeiro de 2015. A idéia é que os fãs, curadores, gestores divulguem seus selfies nas grandes plataformas e redes sociais – uma espécie de celebração global por Facebook, Twitter e Instagram das grandes coleções do mundo.

À parte o desejo de entretenimento, o que o público contemporâneo de arte – assim como o público de música clássica ou mesmo de literatura – parece tomar por pré-requisito, o projeto é evidentemente um chamariz para jovens, mas também para a nova estirpe de adultos que somos nós, sempre prontos “to be amused to death” – como já diagnosticara Neil Postman.

“Amusing Ourselves to Death” é um livro de 1985. Dialoga por sua vez com dois livros decisivos para o século XX: “1984” de George Orwell e “Admirável Mundo Novo” de Adous Huxley. Uma sua passagem famosa do prefácio:

“O que Orwell temia eram aqueles que proibiriam livros. O que Huxley temia era que não houvesse nenhuma razão para proibir um livro, pois não haveria ninguém que o quisesse ler. Orwell temia aqueles que nos privariam das informações. Huxley temia aqueles que nos dão tanta informação que seriamos reduzido a passividade e egoísmo. Orwell temia que a verdade nos fosse ocultada. Huxley temia que a verdade se afogasse em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial (…). Como Huxley observou em Brave New World Revisited, os defensores das liberdades civis e racionalistas que estão sempre em estado de alerta para se opor a tirania “não levaram em conta o apetite quase infinito do homem por distrações” (…). Este livro é sobre a possibilidade de que Huxley, não Orwell, estava certo.”

Na New Criterion, em dezembro de 2013, Eric Gibson já se perguntava se a tal nova experiência museológica não era como um Cavalo de Tróia, um presente que ao limite levaria ao colapso a cidadela protegida pelos muros de nossas instituições culturais – que deveriam ser, por definição, os lugares de preservação e compreensão de uma certa sensibilidade. A pergunta é importante, se não por mais nada, como mostrei, por ter antecedentes há pelo menos oitenta anos… Segue sem resposta. Alguns sugerem que resistir aos desejos e necessidades comportamentais desse novo público é tolice, posto que a mudança é inevitável. Outros preferem lutar essa batalha perdida. O que sabemos é que as novas tecnologias estimulam uma nova postura por parte do público e, curiosamente ou não, a nova postura vem sendo recentemente abraçada ou mesmo estimulada pelos ativistas ou gestores das instituições de cultura de nossa época.

por Leandro Oliveira

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