Heitor, domador de cavalos

Entre os tantos momentos de tirar o fôlego, há na Ilíada o Canto VI. Àquele altura o leitor ou ouvinte já está familiarizado com as agruras da guerra, já imaginou soldados de ambas as hostes tombarem da forma mais virulenta. Já percebeu que a luta independe da força, da bravura, honradez ou vontade dos homens: os homens são, ali, mercê das paixões dos deuses.

No Canto VI, então, Heitor – general das tropas troianas – retorna a sua sagrada casa para o encontro com Andrómaca. O poema voa nos versos de despedida do casal e nos comenta André Bonnard, “há nesta última conversa dos dois esposos qualquer coisa de muito raro na literatura antiga: a perfeita igualdade no amor que eles se testemunham. Falam no mesmo nível, amam-se ao mesmo nível. Heitor não ama em Andrómaca, nem em seu filho, bens que lhe pertençam: ama, neles, seres de um valor igual ao seu”.

Momentos depois Heitor encontra seu filho. O menino assusta-se com o aspecto do pai, vestido ainda pela guerra. O casal ri-se, e após beijar e abraçar o filho, Heitor dirige uma oração (tradução de Frederico Lourenço):

Ó Zeus e demais deuses, concedei-e que este meu filho
venha a ser como eu, o melhor dos troianos; que seja tão
ilustre pela força e que pela autoridade seja rei de Ílion.
Que de futuro alguém diga ‘este é muito melhor que o pai’,
ao regressar da guerra (…).

Hoje ao acordar com esta passagem em mente, pensei em quem será – para além do muro de minha sagrada Tróia particular – Aquiles. Pensei também que para alguns de nós, como Heitor, a coragem e a disposição para luta só pode fundar-se na disposição de defender aqueles a quem amamos. Sim pois Heitor sabe que Tróia está perdida (Pois isto eu bem sei no espírito e no coração:/ virá o dia em que será destruída a sacra Ílion), “mas o amor, justamente, não se detém em tais certezas”.

Destino inexorável, pois a guerra é aos homens todos que compete, bem diz Homero.

Pensei ainda em Beatriz. Em seu aniversário o presente quem ganha sou eu, que recebo, com ela, o sentido para a batalha de todos os dias.

por Leandro Oliveira

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