Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Ciência como bruxaria

O fascínio pela “ciência” pode causar alguns constrangimentos. Os jornalistas da Veja são especialistas em tais constrangimentos e esta semana duas matérias adoráveis pela ingenuidade nos leva aos limites do bom senso: a primeira quando, nas prestigiadas páginas amarelas, um antropólogo de Stanford sugere que a carga genética interfere massivamente na escolha entre ser de direita ou de esquerda; a segunda quando publica a pesquisa de psicólogos da Universidade de British Columbia que inventariam as 36 perguntas infalíveis para fazer alguém apaixonar-se por si.

O que dizer? A confusão absurda e pouco culta da primeira pesquisa, que trata um conceito cuja história remonta pouco mais de dois séculos (o de direita e esquerda em política) assumidos em termos naturais (e, mais ainda, genéticos), resulta em um determinismo tão pouco inteligente que me resta citar… Voltaire:

“Recebi, caro senhor, vosso livro contra o gênero humano [Discurso sobre a origem…], e vos agradeço. Agradareis aos homens, a quem dizeis suas verdades, mas não os corrigireis. Não se pode pintar em cores mais fortes os horrores da sociedade humana, da qual nossa ignorância e fraqueza esperam tantas consolações. Jamais se empregou tanto engenho em querer tornar-nos animais; dá vontade de andar com quatro patas quando se lê vosso livro. Entretanto, havendo perdido esse hábito há mais de sessenta anos, sinto infelizmente que me é impossível retomá-lo, e deixo essa postura natural a quem dela seja mais digno do que vós e eu. Tampouco posso viajar para ir encontrar selvagens no Canadá; primeiramente porque doenças que me afligem prendem-me ao lado do maior médico da Europa, e não encontraria os mesmos recursos entre os missouris; em segundo lugar, porque a guerra chegou a esses países e os exemplos de nossas nações tornaram os selvagens quase tão maus quanto nós. Limito-me a ser um selvagem pacífico, na solidão que escolhi em vossa pátria, onde deveríeis estar.(…)”

A segunda pesquisa parece mais hipnose que psicologia. Não acredito em bruxas, mas existem, e concedo ser possível que a coisa dê certo: há de haver tudo entre o céu e a terra. Mas entre o céu e a terra, não será jamais chamado por ciência tal bruxaria.

Ambos questionamentos resultam de decisões humanas e a reverberação de suas ações; eventos como escrever no computador, a formação do ministério da Dilma, uma conversa com primos desagradáveis ou, Deus do céu!, apaixonar-se, são produtos de uma série de interações inteligentes, e embora haja um campo de regularidade e previsibilidade do pensar e fazer humanos, tais coisas são inteligentes exatamente por não serem determinados por leis imutáveis mas resultado de um processo eminentemente interativo. Mas nossos “cientistas sociais” e os jornalistas da Veja parecem tão obcecados com a narrativa do Homem como pouco mais que um animal, que parecem perder inclusive o senso do ridículo.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 18 de janeiro de 2015 por em ciência, Explorações, meio e mensagem e marcado .

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