Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Sérgio Bernardes em Londres

Acaba de passar, no Barbican Centre em Londres, o documentário “Bernardes”. O evento, que prevê um Q&A entre a platéia e os produtores, foi promovido pelo The Architecture Foundation. “Bernardes”, que foi eleito o 2º melhor filme do ano pelo Ecumenópolis – the documentary film programme of the Catalan Architects’ Association em Barcelona, é uma pequena jóia. Dirigido por Gustavo Gama Rodrigues (neto de Sergião) e Paulo de Barros, é ocupado em parte pelas memórias daqueles que conviveram com Sérgio somadas a imagens de arquivo que, hoje podemos avaliar, são definitivamente históricas.

Sobre Sérgio tive oportunidade de escrever algumas palavras na primeira versão do Ocidentalismo, à ocasião do lançamento de seu livro. Em tom de memorial, pude contar apenas a parte menos pública desse que foi, tenho orgulho de dizer, um amigo querido, um amigo de curta mas intensa convivência nos meus últimos anos de Rio de Janeiro. Para muito além do maior arquiteto brasileiro de sua geração, Sergio Wladimir Bernardes (1919 – 2002) era um gentleman de rara inteligência e sensibilidade. Nunca esquecerei da primeira vez que o conheci: embora ele tivesse quase oitenta e eu cerca de vinte, pareceu de uma curiosidade sincera sobre o que eu fazia, como estavam os estudos, o que gostava em música. Não havia qualquer carisma de minha parte, apenas sua generosidade ao perceber minha timidez e fazer questão de me deixar à vontade. Comentei à ocasião:

“Desde aquele primeiro encontro pude ficar algum tempo próximo de sua família, principalmente sua esposa Kykah e seus netos Mana e Pedro, em aniversários e pequenas viagens ao litoral. Nunca fiquei sabendo de fato quem era Sérgio, pois conviver com um gênio nos faz crer que ele é alguém como nós. Sérgio não era. Sua inteligência o fazia não só uma grande companhia mas um intelectual pulsante, permanentemente inspirado em coisas originais e vivas, jamais parecendo satisfeito com a rotina de prancheta dos arquitetos. (…) Pensava o tempo todo, e pensava coisas formidáveis.”

Seguia pensando, mesmo sendo aqueles os últimos anos de sua vida. Em 2002, pouco após a morte de Sérgio, vim para São Paulo. Rememorei o post de 2010 quando assisti um ano atrás o filmaço “Flores Raras” (para assistir o trailer, clique aqui), e a casa de Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Sobre a casa, Lauro Calvacanti diz:

Petrópolis era o local de veraneio mais seleto das elites cariocas e foi um dos principais centros das construções de Sérgio Bernardes, na primeira fase da sua carreira – verdadeiras jóias arquitetônicas em termos de interação com a paisagem, detalhes construtivos e inventivas soluções formais e de espaço. A obra-prima desse extraordinário período foi a casa em Samambaia criada para Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop.

Lota não era uma cliente qualquer. Livre, culta, rica, intelectual não-esquerdista com sofisticação européia e simpatia norte-americana, uma postura pessoal irreverente, personalidade complexa e sexualidade heterodoxa. Amiga pessoal dos principais intelectuais brasileiros da época, era ligada ao grupo que funda o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, auxilia na constituição de seu acervo e, sobretudo, no contacto com Happy e Nelson Rockfeller, fundamentais no processo inicial de criação do museu. Sua companheira, a poeta Elizabeth Bishop, gostava da serra com o mesmo vigor e paixão com que estranhara, profundamente, o clima tropical e o ambiente do Rio de Janeiro. Lota comprara um terreno em um dos pontos mais altos de Petrópolis, um verdadeiro recanto das águias. Perfeito para uma casa isolada, mas aberta para personalidades e intelectuais. Era o modelo do lar de Gertrud Stein/Alice B. Tolklas, abrigo da geração perdida na Paris do início do século vinte, que encontrava nova versão e espaço naquele ponto da Serra do Mar. Com vista imponente, o terreno dominava as montanhas e o vale. Por vezes envolto por nuvens, apenas alguns cumes de montanhas surgiam da massa de neblina. Queria que a casa aproveitasse ao máximo o panorama e demonstrasse o mesmo arrojo que a paisagem.(…)

Sérgio Bernardes, com apenas 32 anos, elabora um dos mais radicais projetos de residência moderna. Um telhado de alumínio ondulado repousa sobre uma treliça metálica e finos pilares de aço, sobrevoando e protegendo a construção, que alterna espaços abertos e fechados. Planos de vidro, tijolos e pedra organizam os espaços: numa das extremidades estava o apartamento íntimo das moradoras, com nível um pouco mais elevado que os demais. Uma longa e elegante galeria em rampa de dois trechos serve como varanda e conduz ao estar social e aos aposentos dos inúmeros e constantes hóspedes, situados na outra extremidade, de modo a garantir-lhes o máximo conforto e privacidade. Visitas que incluíam, além daqueles amigos intelectuais já citados, estrangeiros ilustres que visitavam o Brasil, como o poeta Robert Lowell, Alexander Calder, Monroe Wheeler e Aldous Huxley. (…)

A casa obteve o prêmio para obras de arquitetos abaixo de 40 anos na II Bienal de São Paulo, conferido por júri ilustre integrado por Alvar Aalto, Walter Gropius e Ernest Rodger. Esse não foi, contudo, o único prêmio a contemplar a casa e seus habitantes. Elizabeth Bishop foi agraciada, em 1955 com o Pulitzer de Poesia, em reconhecimento a seu livro Poems: North & South – A Cold Spring. Escrito em Samambaia, tinha entre seus poemas um dedicado à própria morada, a “Canção para a estação das chuvas” que assim terminava: “o vapor / escala a vegetação espessa / sem esforço, volta-se / e envolve ambas, /casa e rocha, / numa nuvem particular”.

Anteontem Sérgio foi tema de uma belíssima reportagem no The Guardian, “Sérgio Bernardes: the beautiful and the damned”. Sugiro que leiam, todos. Um dos nossos maiores arquitetos merece, mesmo que postumamente, as mais reiteradas homenagens.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 13 de janeiro de 2015 por em arquitetura, Ensaios, Resenha e marcado , , , .

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