Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Uma nada edificante história de Ano Novo

O concerto de Ano Novo da Filarmônica de Viena foi este ano, mais uma vez, a tradicional festa midiática internacional da música clássica “séria” – com transmissão para 90 países e mais de 50 milhões de telespectadores. Digo música clássica “séria” não por anglicismo, mas para opor àquela reconhecidamente desprestigiada nos meios “cultos”, a música clássica dos espetáculos de André Rieu e similares.

Não que o concerto de Viena se distinga muito daquele de Rieu: já pela opção de repertório, mas sobretudo pelo tipo de postura pretensamente menos solene, pretensamente mais divertida, enfim, pretensamente leve, o evento está de fato para um concerto como a Flip de Paraty está para The London Book Fair. O resultado é que, a despeito do hipe, trata-se de um dos eventos musicalmente menos interessantes da temporada da orquestra, com as raríssimas exceções dos concertos de 1989 e 1992 com Carlos Kleiber, um “Danúbio Azul” absolutamente fantástico por Claudio Abbado em 1991 e os concertos com Nikolaus Harnoncourt de 2001 e 2003.

Este ano, a discussão em torno do evento – regido por Zubin Mehta pela quinta vez – se tornou ainda mais acalorada: o polemista Norman Lebrecht considerou por bem associar a escassez de mulheres no palco da orquestra, resultado anacrônico de uma postura deliberadamente misógena dos membros da orquestra, a seu passado filo-nazista que apenas recentemente tem sido devidamente pesquisado por historiadores como o austríaco Oliver Rathkolb (que Norman Lebrecht não cita, mas cujos relevantes resultados, fruto da análise de documentos inéditos do arquivo da Filarmônica, alcançaram as primeiras referências públicas em Israel em janeiro de 2013 e no New York Times em fevereiro do mesmo ano. A celeuma foi tanta que em dezembro de 2013, a orquestra decidiu retirar a comenda dada a seis entusiasmados ex-nazistas, entre eles Baldur von Schirach, ninguém menos que o autor do Hino da Juventude Hitlerista.

O fato da data do primeiro Concerto de Ano Novo remontar ao insuspeito ano de 1939 não é apenas a primeira dica de como o assunto é pertinente: a coisa toda foi pensada, em sua origem, como uma celebração dos “novos tempos”. Em 1942, mais da metade dos músicos da Filarmônica era associada ao Partido, e pelo menos cinco de seus músicos, de origem judaica, vieram a morrer em campos de concentração. Em 2014, lembra Lebrecht, a orquestra contou com apenas cinco mulheres no palco. Claro, a discussão segue acalorada e, embora tenha uma parte significativa pouco compreensível para o público clássico brasileiro – que dá a uma mulher, Marin Alsop, o posto mais prestigiado das instituições sinfônicas nacionais -, contextualiza-se na sempre impressionante relação dos artista com o poder ao longo da história. O tema da orquestra Filarmônica e o nazismo tem conosco exemplares célebres no terreno da própria música clássica, como o caso do Heitor VIlla-Lobos e o Estado Novo, e é claro se desdobra até nossos dias em outras paragens. Alguns imaginam tratar-se a música clássica de um mundo encantado mas este ano em Viena deve ter sido difícil ouvir a aparentemente inofensiva “Radetzky MArsch”, sem pensar em coisas pra lá de cabeludas.

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