Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Tenho entre os muitos grupos de estudo que oriento, um especialíssimo, herdado do jornalista J. Jota de Moraes (1943 – 2012). Reunindo-se semanalmente há mais de dez anos – dois dos quais sob minha tutela – é um grupo em tudo especial, que me desafia alcançar a cada semana um nível que mesmo meus estudos mais dedicados reluta atingir. Na quarta, gentilmente, fui convidado por seus membros para um jantar de final de ano. Escrevi em poucas palavras o agradecimento.

Entre los pecados mayores que los hombres cometen, aunque algunos dicen que es la soberbia, yo digo que es el desagradecimiento, ateniéndome a lo que suele decirse: que de los desagradecidos está lleno el infierno. Este pecado, en cuanto me ha sido posible, he procurado yo huir desde el instante que tuve uso de razón; y si no puedo pagar las buenas obras que me hacen con otras obras, pongo en su lugar los deseos de hacerlas, y cuando éstos no bastan, las publico; porque quien dice y publica las buenas obras que recibe, también las recompensara con otras, si pudiera; porque, por la mayor parte, los que reciben son inferiores a los que dan; y así, es Dios sobre todos, porque es dador sobre todos y no pueden corresponder las dádivas del hombre a las de Dios con igualdad, por infinita distancia; y esta estrecheza y cortedad, en cierto modo, la suple el agradecimiento. Yo, pues, agradecido a la merced que aquí se me ha hecho, no pudiendo corresponder a la misma medida, conteniéndome en los estrechos límites de mi poderío, ofrezco lo que puedo y lo que tengo de mi cosecha (…).

Acabo de ler o Dom Quixote e um pouco sob o conselho do valoroso fidalgo, acho que lhos devo gratidão. Não poderia participar sem agradecer a todos nessa pequena festa. E posto que não posso retribuir com ações todo o bom sucesso que vocês me proporcionaram, um pouco como Sancho, atrapalhado e cheio de frases feitas, decidi registrar algumas palavras.

Ao vir para o jantar lembrei de um livro que é uma longa reflexão de Claudio Abbado que, num papo com Lidia Bramani, sua assistente por muitos anos, percorre parte da experiência transformadora dos anos berlinenses. E Abbado comenta do “zusammen musizieren” da orquestra, a cultura de (desculpem o neologismo) “musicar” em conjunto.

Gosto de “musicar” pois, mais que “fazer música”, inclui ainda os que, ouvindo música, também criam com ela. Este grupo, ao decidir sair da solidão do ouvir e fazer música, ao decidir “musicar” em grupo todas quartas-feiras, afina-se nessa arte sofisticada de “zusammen musiezieren” do qual fala Abbado e que tanto o impressiona na orquestra de Berlim. Por isso posso dizer sem vergonha de exagero, entre os tantos grupos que tenho o prazer de orientar, este é minha Filarmônica de Berlim.

Que como a Filarmônica de Berlim, o grupo decidiu chamar por maestro alguém mais jovem do que ele… Preciso dizer que embora não me seja incomum ser chamado de professor por pessoas que contam com mais experiência que você, segue improvável ser professor de pessoas que não tenho a menor dúvida, sabem mais do que eu. Que seja dito francamente: à diferença de todos meus outros e tantos grupos de estudo, faz alguns anos tenho por companheiro semanais alunos com quem por vezes acho que deveria pagar pelas aulas.

Fiz um voto à música quando mal havia entrado na adolescência. Fiz dela minha primeira e mais avassaladora paixão, intensa e fiel, com qual divido idéias, fantasias, vitórias e derrotas. Em todo esse tempo, raramente havia tido o prazer de conviver com apaixonados por música como convivo quando com meu grupo de quarta.

Falei de paixão e comecei invocando Cervantes. E se sou um pouco Sancho Pança, a bem de completar a alegoria, preciso agora, após mais de dois anos de contato, dar a todos um triste diagnóstico: o projeto dessa turma é um pouco o projeto de senhores loucos. E como Sancho, sigo estes loucos com toda gula e dever. Tenho muito orgulho de ser o fiel escudeiro de todos vocês, aqueles que hoje são neste mundo tão de cabeça pra baixo, verdadeiros cavaleiros andantes, em busca da beleza e da justiça que apenas a boa música pode dar.

Quero agradecer a todos por serem a cada quarta-feira meu Dom Quixote.

Saúde e vida longa!

por Leandro Oliveira

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Publicado em 11 de dezembro de 2014 por em EDITORIAL, educação.

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