Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

O eterno chororô do cinema nacional

A exibição de um sucesso deveria preocupar apenas os invejosos. Imagino que seja o acontece agora com “Jogos Vorazes”, o blockbuster da Lionsgate Entertainement, que sofre ataques públicos dos orgãos estatais competentes. O sucesso é medido pelo fato de que muitos queiram ver o filme e, sabendo desta demanda mais que evidente, a maioria das salas de cinema planejem sua exibição.

Pois não é que o orgão estatal que cuida do assunto, a Ancine, infeliz com os desdobramentos dessa parceria feliz entre produtores, públicos e administradores culturais, vem à público, pela voz de seu presidente, Manoel Rangel, atacar o empreendimento:

Quando um filme é lançado em mais de 1.300 salas, como “Jogos Vorazes”, ele está expulsando outros, homogeneizando a oferta e acabando com a diversidade. O espectador que encontrar apenas um título em quase 50% das salas desiste. É menos ingresso sendo vendido e redução o hábito do cinema.

Ancine chama as leis normais da economia de “ocupação predatória” – como se “Jogos Vorazes” fosse exercer o monopólio cinematográfico, tal como uma Petrobrás das telas, e não como se o tempo de exposição tivesse, por forças das mesmas leis econômicas, limitado. Ou Manoel acha que o cinema é uma atividade tão frágil que não suporta seis semanas de superexposição de um blockbuster?

Não é anormal que fiquemos todos a mercê da penúria que rege nossas vidas culturais no país: quando há finalmente algum rasgo de livre escolha e mercado vem algum iluminado do governo nos atrapalhar com alguma idéia genial do alto de seu micro-poder.

O único papel saudável de um gestor público de cultura no Brasil é de mediação, capacitação e fomento. No caso, vemos o revés de uma boa mediação, que seria importante para organização dos atores da cadeia produtiva ou criativa – por vezes ainda muito fragmentada ou pouco profissional.

Mas parece normal que um artista se confunda com questiúnculas menores como a lei da oferta e procura assim com os técnicos da gestão pública.
Rangel provavelmente imagina que o distribuidor e as salas de cinema afugentarão o público, talvez até imaginando nisso uma intenção deliberada de, como é mesmo que se fala entre militantes?, “acabar com o cinema nacional”. Talvez por imaginar que uma distribuidora atue da mesma forma amadorística que os gestores da própria Ancine, Rangel sugere que os produtores, ao decidir estrategicamente ocupar 46% das salas de todo país, tenham deixado de avaliar o potencial de procura do filme ou sua atratividade. Devem ser loucos para rasgar dinheiro em cópias que jamais os trarão retorno…

Passada a semana da estréia, veio a confirmação de uma ocupação extraordinária. A ironia é que o mercado da arte é mais inteligente que os gestores da Ancine, e curiosamente, “Jogos Vorazes” perdeu em ocupação proporcional para o argentino de baixo custo “Relatos o Selvagens”. Vida longa ao livre mercado da arte!

por Leandro Oliveira

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Publicado às 9 de dezembro de 2014 por em cinema, gestão cultural, OBSERVATORIO e marcado , , , .

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