Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Apoteose de Hitler

Agora leio que Hitler foi absolvido por estudantes de Mogi das Cruzes e, como todos, fico chocado com o veredicto. Era uma aula de história, o que torna as coisas mais embaraçosas e me permite imaginar qual parte da nobre disciplina foi omitida pelo professor Paulo Ciaccio. Seria aquela em que Hitler é populista e fecha o Congresso, a outra do militarista que invade a Polônia, ou a do genocida da decisão final? Qualquer delas justificaria condenações severas, mas os garotos, endossados pelo professor pelo jeito preferiram não entender a história mas, sem entendê-la, brincarem de seus revisores. Talvez tenham passado por uma série de fatos favoráveis (sim, em algum lugar os há), mas lhes faltando totalmente o senso das proporções os sopesaram e consideraram o tirano um injustiçado.

Mera brincadeira, talvez até inócua, pois por sorte não dependemos dos meninos de Mogi-das-Cruzes para contar a História mundial. Mas imaginar que não haja a semente de algo muito perverso em jogo é já um passo à leviandade. Uma das características fundamentais da democracia é a necessidade de acolher as mais distintas matrizes ideológicas, inclusive aquelas que sugerem solapar a própria democracia. Que haja tais ideologias entre nós fica evidente no caso acima, onde não importa se as justificativas para absolvição de Hitler estão a direita ou a esquerda: radicais de ambos os lados que opinem a favor do indulto de Hitler não foram avisados que sob seu governo, não teriam sequer como brincar de fazer tal julgamento.

Permitir que seus cidadãos esqueçam ou vilipendiem a história, ou seja, que se comportem como bárbaros intelectuais, também é uma propriedade da democracia. Mas a esta altura vale lembrar algo fundamental para os termos deste site: Hitler não era um bárbaro. Citava trechos inteiros de Schopenhauer de cor. Seu amor por Richard Wagner era tamanho que em muitos círculos aventa-se até hoje a proibição pública da música do compositor. Seu interesse por design e arquitetura se estendia não apenas pelos projetos sobre os quais se debruçava pessoalmente, como do modelo popular da Volkswagen (o nosso querido Fusca), ou o Führermuseum de Linz. Muitos autores que estudam Hitler preferem imaginá-lo um idiota sem cérebro, ou um celerado sem alma – o que muitos entre seus contemporâneos se esforçaram em pintar. Mas Hitler ao que parece era um sujeito de interesses culturais bastante sofisticados. Digo isso pois foi inclusive um pintor razoável e, coincidentemente, na mesma semana de sua absolvição em Mogi das Cruzes, tivemos a notícias da venda de alguns de seus quadros por uma galeria alemã. E é sobre isso que queria falar.

Há alguma coisa desconcertante no fato de um dos maiores genocidas da história da humanidade ter sido durante boa parte de sua vida um aspirante a pintor profissional. O jovem Hitler chegou a sustentar-se com a venda de suas obras e, entre seus compradores mais fiéis, havia um advogado judeu chamado Samuel Morgenstern. Como aspirante a artista profissional, Hitler disputava mercado com outros aspirantes não menos notáveis como Egon Schiele ou Oscar Kokoshka. E convivia com os desdobramentos da Secession de Gustav Klimt.

Um número razoável dessas pinturas foram levadas aos Estados Unidos ao final da segunda guerra, e seguem propriedade do governo norte-americano, que declina qualquer convite para sua exposição. Outras foram adquiridas por colecionadores em leilões pelo mundo: em 2009, 15 de suas pinturas alcançaram o valor de 120.000 dólares. O valor de sua aquarela vendida semana passada foi de 130.000 euros.

Já foi dito aqui que Hitler era relativamente culto, mas era ainda, em arte, um sujeito de gosto claramente conservador. Mas não foi pela mediocridade que as aquarelas de Adolph Hitler foram vendidas por um bom preço: seu talento era razoável, embora absolutamente anacrônico, e se há alguma relação entre gosto burguês e humanismo, seus quadros são prova de que não é assim que anda a sege. Pois se não foi pela mediocridade, que hoje em dia alcança preços estonteantes!, provavelmente tampouco foi pelo arrojo ou gosto sofisticado que as peças alcançaram esta semana o preço final. Indubitavelmente, do ponto de vista artístico, as peças não fedem nem cheiram, ou melhor, não iluminam ou colorem muita coisa.

Ou pelo menos assim reza a maior parte dos nossos críticos. Por ora, ao contrário dos alunos de Paulo Caccio, a história da arte não absolveu o jovem artista Hitler. O valor de seus quadros segue aquele da relevância histórica. São históricos pois, gostando ou não do personagem, os anos como artista em Viena em princípios do século XX são parte desconcertante e inescapável da biografia daquele que seria talvez o maior tirano da era moderna. O que nos resta é perguntar: o que do artista haverá neste? O que, a despeito da ambição de qualquer jovem artista, haverá no genocida que pretende um III Reich?

Disse que a brincadeira em Mogi talvez seja inócua, talvez não. Pessoalmente fico a pensar que entre Mogi de 2014 e a Viena das primeiras décadas do século XX, muita coisa talvez há de ter em comum. Pois se os quadros revelam que a Viena de Hitler era contemporânea, sem dúvida, mas talvez distante da Viena de Gustav Mahler, Sigmund Freud, Karl Kraus, Arnold Schoenberg, Peter Altenberg, Arthur Schnitzler, tanto lá como aqui, é possível se deixar intoxicar por uma certa atmosfera demoníaca. De algum modo a arte de Mahler e Schoenberg, os textos de Freud, Altenberg e Schnitzler expressam esse mal-estar. Cada um a seu modo, os gênios da época se liberavam do veneno da decadência cultural através das assimetrias e bizarrias de suas invenções, das suas reivindicações e maquinações por vezes brilhantes, sempre extraordinárias. Os meninos de Mogi tiveram acesso através de seu mestre de todo o poder que a abstração e vaidade da retórica é capaz e, ao rigor da realidade, preferiram os argumentos cheios de acertos e boas proporções de seu professor. Acertos e boas proporções como os dos quadros de Hitler. Tão diferentes, Mogi e Viena em algum momento do tempo comungaram do mesmo ar, contaminado e vil. As brincadeiras, mesmo entre crianças, servem também para reforçar valores, fortalecer espíritos, descobrir o mundo. São mais que mera diversão. Espanta que nem que por mera brincadeira, os alunos de Mogi-das-Cruzes tenham preferido se deixar exorcizar.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 8 de dezembro de 2014 por em artes plásticas, cultura e política, educação, Explorações e marcado .

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