Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

A segunda morte de Leon Klinghoffer II

Mais uma ou duas palavras sobre a ópera de John Adams. Há muito nos habituamos com esquemas míticos, fabulares ou simbólicos como ponto de partida às tramas operísticas. É assim pois são gêneros onde ficam mais deliberados a expressão de valores de determinado tempo. Richard Wagner sabia disso. O mito e a fábula são os meios mais diretos para entender através o amor que enfrenta a própria morte de Orfeo, as aventuras intrincadas do heroísmo aristocrático de Atys, Cadmus e Persée… Exceção a regra, ao menos aparentemente, segue neste contexto excepcional “La Incoronazione de Poppea” de Claudio Monteverdi: quando Nero mata seu conselheiro, exila sua esposa e coroa a amante num final feliz, o que o público provavelmente via, no paradoxo de uma bela melodia final, era o horror da força e do despotismo selvagem.

Mas “L’Incoronazzione” é em tudo excepcional. Mesmo as comédias do século XVIII, organizadas para um público menos exigente, não se abstém de de sua moralidade. Como “La serva Padrona”, “Nozze de Figaro” e “Cosi fan Tutte”: embora falem de empregados falastrões, aristocratas libidinosos e mulheres adúlteras, contam para isso com roteiros de fábula de alto teor moral e didático.

As cartas se embaralham um pouco com a aparente reação realista do século XIX, que podemos ver em “Carmen” e “La Traviata”, por exemplo. Embora possam ser tomados como a busca da expressão da vida ordinária, de fato traz à baila novos modelos do exótico – um topos caríssimo ao ambiente cultural romântico – sugeridos a partir de contextos sociologicamente estimulantes e moralmente degradantes (no caso, a cigana e a prostituta de luxo, respectivamente). Neste novo mundo narrativo, por vezes o que vemos como opção é de fato apenas uma solução incontornável, pois são soluções incontornáveis a batalha impossível pelo amor de Mimi, o abandono fatal de Manon, o seppuku de Butterfly e o assassinato de Turiddu: Incontornáveis pois tratam de elementos morais excepcionais cuja apoteose só poderá se dar com a morte. O realismo é fingido, pois na “vida como ela é”, sabemos todos, as pessoas antes de morrer se relacionam e fracassam, suportam dores e falências por longos anos de frustração. O caso é que sem o ponto culminante da morte, não haveria espetáculo.

“A morte de Leon Klinghoffer” traz a morte já no título. Título curioso, pois embora tenhamos toda uma tradição mortuária no ambiente operístico, não temos qualquer referência a ela nos títulos das óperas tradições. Talvez porque “Wozzeck” não trate da morte de Marie mas da loucura do protagonista, e “I Pagliacci” não trate da morte de Nedda mas de traição e ciúme… Carmen e Manon Lescaut são personagens que morrem ao final de suas tramas, mas são seus atos de bravura e ímpeto que motivam a trama, a morte apenas é o desdobramento natural de suas escolhas e qualidades. Neste sentido é fácil entender que quando John Adams decide reconhecer no título a morte de Klinghoffer, está apontando para outra questão. É que em um atentado terrorista, a morte individualizada é tudo que menos interessa: as vítimas são objetos desumanizados em função das necessidades do sequestrador militante. Não há indivíduos humanos para um terrorista, mas instrumentos para sua causa. Algo muito nosso, contemporâneo. Mais que realista, nos termos do século XIX, trata-se de uma ópera histórica que lida com fatos concretos, assassinatos brutais acontecidos há menos de trinta anos que seguem sendo perpetuados com novos personagens nos dias de hoje. Disse de uma ópera histórica, mas corrijo: trata-se de ópera jornalística, que lida com fatos e toma posição sobre dilemas que ainda não puderam ser devidamente processados pela análise histórica.

Se não são ainda processados pelos historiadores, são e devem ser julgados pelos nossos valores. Não é difícil posicionar-se quanto o terrorismo. Se a defesa e atuação de atos deliberadamente violentos perpetrados aleatoriamente contra inocentes deve ser combatida, não são as motivações que devem tomar o centro da discussão, mas os atos que, sem meias palavras devem ser acusados do que são: criminosos. Assumir no debate público as motivações – legítimas ou não – é permitir posteriormente a justificativa de atos francamente ilegítimos.

Apenas tendo este quadro em mente poderemos entender de fato do que se trata a encenação de “A morte de Leon Klinghoffer”.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 1 de novembro de 2014 por em cultura e ética, cultura e política, Ensaios, ESPECIAL, falando de música e marcado .

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