Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Referências a Gustav Mahler

 

Após a releitura de trechos da biografia de Quirino Principe sobre Mahler (quase mil páginas!), é do psicanalista Dr. Stuart Feder o mais recente livro dos meus desejos. Chama-se Gustav Mahler – a Life in Crisis que, para muito além de dissecar o famoso encontro com Freud, revela parte intrincada das referências neuróticas de Mahler – e principalmente, como estas neuroses se traduzem em sua música. Deveria ter um pouco disso no Falando de Música desta semana, quando a Osesp apresenta a terceira sinfonia do compositor… a ver.

A Terceira Sinfonia de Mahler, executado pela Osesp e com a extraordinária Nathalie Stutzmann será assunto do Falando de Música deste final de semana. Quinta, sexta às 20h00, e sábado às 15h30, na Sala São Paulo.

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It was the crisis of 1901 when the composer believed he faced death that the theme of mourning made its most prominent appearance in his music. It was the very next summer that the composer began his Kindertotenlieder. It was characterized by well-known stylistic changes as seen in the Fifth Symphony of the time. Clearly the Wunderhorn years were over as Mahler wrote the last of the Wunderhorn songs and turned to Rückert texts. In Kindertotenlieder, only a shadow behind the deaths of children one finds the theme of the bereavement and mourning of the parents. Biographically, Mahler has revived his identification with his own parents and the multiple deaths of his siblings. This artistic and personal trend was accompanied by an astonishing change in Mahler’s actual life. Suddenly, the confirmed bachelor was ready for marriage and soon after he met Alma Schindler in the fall, marriage rapidly became a foregone conclusion. I believe the forty-one-year-old bachelor, frightened by the passage of time and his own mortality, sought the common immortality of man: the wish to have a family of his own. Thus the importance to him of marriage and the anticipated birth of his first child. Hence, all the more intense the loss that that destiny had in store.

Por Stuart Feder in “Mahler, Mourning and Consolation”.

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Debussy tende il proprio linguaggio fin quasi a spezzarlo senza mai spezzarlo, assotigliandolo miracolosamente e rivelando la resistenza. Mahler lo infrange continuamente, ma sui frammenti accampa qualcosa di solido, e la costruzione galleggia. Motivi estetici e una morale ironica dettano forme e movimenti alla musica di Debussy: essa somiglia allo svanire evaporando, ma una sorgente la rigenera sempre. Malgrado questo, o proprio per questo, essa gira continuamente intorno al senso de distruzione e di morte, anche nei suoi luoghi più incantati. Intorno alla distruzione e alla morte gira anche la musica de Mahler, ma in modo diverso: tentando una formula, dirò che il tono generale di Mahler è la tarda maturità che si avvicina ai limiti della decomposizione senza mai toccarli. L’inferiorità di Mahler rispetto a Debussy ha un’origine prima: in Mahler il tema della morte è molto più esplicito. Manca a Mahler la vera ironia: c’è l’autoironia (che può, scivolando malamente, ribaltarsi in autocommiserazione) oppure il sarcasmo. Mahler non riesce ad essere ostile né freddo: lo guasta un nefasto “amore” per gli uomini, da cui Debussy è luminosamente immune.

Por Quirino Principe in “Mahler – La Musica tra Eros e Thanatos”.

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O crítico Robert Hirschfield comentava em 1909, por ocasião de uma execução da Terceira Sinfonia:

“Os grandes sinfonistas sentem e revelam a grandiosidade, a força, a nobreza e integridade – não as características negativas – de seu tempo. No entanto, quão frívola, infantil e sem força nossa época aparece através das sinfonias de Mahler.”

Há uma evidente expectativa no texto de Hirschfield, que é a expectativa de um compromisso. Para ele, o artista deve antes de tudo preservar em sua obra um certo “senso de responsabilidade” – é como o porta-voz de seu tempo e sua mensagem, uma “garrafa ao mar” para as próximas gerações, um gesto individual que resume uma cultura. A incorporação da sonoridade do dia a dia, “frívola, infantil e sem força”, criaria então um objeto irresponsável, descomprometido com a percepção das próximas gerações em relação àquilo que expressa, daquilo que acusa e simboliza.

por Leandro Oliveira

Um comentário em “Referências a Gustav Mahler

  1. REGINA VALERIA. MAILART
    4 de outubro de 2014

    A 3.a. Sinfonia de. Mahler – Sala Säo Paulo 03/10 -21:00h

    Na noite do dia 03/10, na Sala São Paulo aconteceu mais uma grande apresentação; magnânima performance da OSESP ao reproduzir a 3a. Sinfonia de Mahler. Com seis movimentos e sua sonoridade e harmonia faziam com que a cada final de movimento (em especial o primeiro e o quarto, salvo engano) os mais incautos e entusiasmados da platéia a aplaudirem calorosamente em desatenção ao concerto sinfônico que deveria prosseguir nos movimentos seguintes sem interrupção.

    Mas, previamente à apresentacao ouvi Leandro Oliveira no Falando de Musica, que acontece previamente aos concertos, fazer citação a serias criticas recebidas quando de sua primeira apresentacao, especialmente por que o significado, os temas aos quais o compositor se baseou para compo-la ainda nao eram de conhecimento do publico e da critica.

    O conhecimento dos fundamentos e das bases para a composição pelo grande Mahler, fizeram cair por terra as severas criticas recebidas e o reconhecimento do mesmo como grande compositor do final do séc. XIX e inicio do XX foram consequências quase que concomitantes.

    Mas, permito-me fazer uma observação pessoal em relação ao primeiro movimento composto no ano seguinte ao inicio da obra, quando então os outros cinco movimentos ja haviam sido concluídos. Em certos momentos me pareceu estar ouvindo nâo uma orquestra sinfônica, mas uma banda de música . aA utilização do pandeiro e a falta de harmonia em determinados trechos me fizeram sentir qualquer coisa de infantil na composição tal como o critico Robert Hirscjfield havia mencionado em sua critica em 1909.
    Näo quero aqui fazer qualquer julgamento critico à obra e nem sei se o critico em questão a teria julgado infantil por este fato. Gostaria apenas nesta oportunidade de fazer este registro de minhas impressões em relação à grande obra executada.
    Nos demais movimentos o crescer melódico e harmônico da sinfonia é sentido a cada movimento . Em especial quando a cantora lírica e o coral infantil e adulto atuam na composição e,mais especialmente ainda no sexto movimento, em que a platéia toda ja com permissão para os aplausos o fizeram calorosamente.

    Grande composição e mais uma apresentação primorosa da OSESP!

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Publicado às 2 de outubro de 2014 por em cultura e ética, Explorações, falando de música, livros e marcado , , , .

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