Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Especial – Festival de Lucerna 2014 (V)

Embora comungue de boa parte da programação de Salzburg, o Festival de Música de Lucerna é diferenciado daquele pois tem um claro interesse pedagógico, que se traduz de modo expressivo na Lucerne Festival Academy Orchestra – que não pode ser confundida com a Lucerne Festival Orchestra (que também se compõe especialmente para o Festival, mas com músicos profissionais de toda europa), nem a Orquestra Sinfônica de Lucerna (que acaba de apresentar-se na Sala São Paulo no domingo passado e dará ao público uma outra oportunidade na noite de hoje, quarta-feira, dia 17).

A missão da Lucerne Festival Academy Orchestra, desde a fundação em 2004, por Pierre Boulez, é a música dos séculos XX e XXI, negligenciada em boa parte da formação do jovem músico. Assim, anualmente, entre agosto e setembro, mais de 120 jovens de todo mundo se dirigem a Lucerna, que se torna a ponto de encontro da nova música, lugar onde os jovens podem trocar experiência e trabalhar o novo e exigente repertório de nossa época: os professores são membros do Ensemble Intercontemporain, de Paris, os maestros alguns dos mais renomados, quando não os próprios compositores.

Este ano, entre as atividades da LFAO, duas performances de muito interesse para o ambiente da boa música contemporânea. Uma, a estréia de “Le Silence des Sirènes” da compositora Unsuk Chin (1961*), regida pelo maestro Simon Rattle e tendo por solista a soprano Barbara Hannigan (para entrevista clique aqui); outra, a performance de “Scardanelli-Zyklus”, do sempre extraordinário Hanz Holliger (1939*) – cujo vídeo com excerto da performance pode ser acessado aqui.

No dia 06 de setembro, foi a vez da orquestra fazer a estréia mundial de “Zimt. A Diptych for Bruno Schulz” do jovem compositor Johannes Maria Staud (*1974), baseada na obra do escritor e gravurista Bruno Schulz (cuja ficção completa foi publicada pela Cosac Naif, outro dia), uma peça de grande proporções (orquestra enorme e mais de trinta minutos em dois movimentos) está para além dos elementos da escrita espectral, que se tornou parte do verdadeiro estilo internacional desde a década de 90 do século passado, explorando elementos temáticos e rítmicos que criam uma variedade bastante eficiente à presa de atenção. Evidentemente, a percepção crítica mais rigorosa deveria passar por reiteradas escutas. O que é possível assegurar desta estréia é a maturidade da escrita orquestral e o impacto inegavelmente emocional da obra – que fez o público aplaudir com entusiasmo ao compositor, no final da récita.

A Sinfonia 4 de Gustav Mahler (1860-1911), por sua vez, não pareceu tão convincente. Talvez pela história de sua recepção, mas em grande parte pelas escolhas pouco sutis no tratamento e equilíbrio entre os membros da orquestra por parte do maestro Matthias Pinscher (regente do próprio Ensemble Intercontemporain), a partitura perdeu em grande parte sua fluidez e, sobretudo, o ambiente poético que se revigora na medida em que consegue preservar ao mesmo tempo a ingenuidade lírica e todo o sarcasmo proto-modernista do compositor. Pouco disso estava lá, talvez porque Matthias Pintscher não parecia ter como domar as forças mahlerianas com uma orquestra tão jovem. Certa vez ouvi que uma orquestra jovem precisa de um maestro velho. Nada mais verdadeiro que nesta noite. O ouro ficou com o último movimento, na voz bela e afinada (embora pequena) da canadense Barbara Hannigan. A despeito de algumas nuances corporais exageradamente dramáticas para as agruras infantis no Paraíso das quais nos conta o texto, a bela soprano guardava dicção perfeita e uma linha de canto suficientemente inteligente para garantir, de toda platéia, aplausos de pé.

por Leandro Oliveira

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