Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Especial – Festival de Lucerna 2014 (IV)

A técnica de organização do programa de Mariss Jansons é realmente peculiar. No primeiro evento, dia 04 de setembro, as inspiradas mas ligeiramente formais Variações sobre um tema de Haydn e a primeira (pouco conhecida) Sinfonia de Shostakovich mostraram música extraordinária mas de impacto imediato ligeiramente arriscado. Mesmo as qualidade da orquestra eram, temo, pouco inteligíveis aos não connoisseurs. O grupo que me acompanhava, todo formado por amantes de música mas não profissionais, foi a prova disso: a orquestra na primeira parte havia impressionado mas não entusiasmado muitos deles. O “quente”, neste sentido específico, foi mesmo o Ravel do concerto para piano e de Daphnis et Chloé.

A segunda récita da orquestra – lotadíssima – seguiu a mesma rotina: o austero e por vezes sério demais concerto para violino de Johannes Brahms (1833 – 1897) na primeira parte era seguido por dois dos mais impactantes poemas sinfônicos de Richard Strauss: “Morte e Transfiguração” e “As travessuras de Till Eulenspiegel”. Assim, reservando grandes formas para a primeira parte e obras de mestres das sonoridades da orquestra moderna na segunda parte, Janjons garante a maximização dos “recursos” em uma turnê, dando oportunidade da orquestra a cada evento mostrar a maior parte das suas tantas qualidades.

A verdadeira sinfonia para violino solo que é o concerto op. 77 de Brahms contou com o absolutamente transcendental Leonidas Kavakos no papel solista. Com barba por fazer e figurino pouco curado, era a antítese de Jean-Yves Thibaudet e seu terno preto com texturas, cabelo de mechas loiras, sapato de grife e (é fácil imaginar) perfume francês. Kavakos nos parecia a todos, em contraste, mais um fiedler do leste europeu, saltimbanco entre cidades pequenas e empoeiradas, daqueles que toca algumas notas de taberna em taberna para colher moedas e assim pagar a próxima refeição.

Mas tanto em um como em outro, a roupa é mero acessório. O som particularmente rico de harmônicos e robusto que Kavakos tira de seu violino é talvez o som ideal para Brahms; ideal para Brahms é sua musicalidade meditada, pouco afeita, aqui a arroubos de virtuosismo fácil. Além do som robusto, impressionava que Kavakos construisse suas frases com diversas nuances sutis, pequenas retenções de tempo, accelerandi e ritenuti de gosto inatacável. A intensidade do musizieren (“fazer música”) dos solistas de sopros no segundo movimento e o acolhimento, por parte do tutti do swing peculiar do primeiro tema do último movimento mostrou que a Concertgebouw era a parceira ideal de um artista perfeito. No bis, a Gavotte en Rondeau da Partita 3 para violino solo.

As boas características de maleabilidade, colorido e alegrias do concerto da noite anterior foram reiteradas na leitura das duas peças de Strauss. Com Strauss, um mago de efeitos e planos sonoros com a orquestra, a Concertgebouw voa como uma Ferrari, e Jansons parece ter prazer nisso. Não havia como não se impressionar. Ao final, aplausos entusiasmados da platéia que pediu o retorno do maestro cinco vezes, e seriam seis ou mais se Jansons não puxasse o spalla para os bastidores, e com ele se dirigisse toda orquestra.

por Leandro Oliveira

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