Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Especial – Festival de Lucerna 2014 (III)

O dia 07 de setembro reservava a Leipzig Gewandhaus Orchestra, o Leipzig Opera Chorus, o GewandhausChor, o GewandhausKinderchor (!) e o maestro Alan Gilbert. Apresentavam de Ludwig van Beethoven (1770-1827) a Sinfonia No.9 em ré menor, Op. 125. Beethoven era antecedido pela “Paraphrase on the Opening of Beethoven’s Symphony No. 9” do compositor austríaco Friedrich Cerha (*1926).

A obra de Cerha é uma pequena jóia que a orquestra assume com absoluta convicção. O tratamento do material temático desintegrado que parte do tema do op. 125 de Beethoven – reduzido a um mero intervalo de quarta justas – faz que a música nos remeta mais ao universo delicado de Paul Klee que aquele, heróico, de Delacroix. Embora tenha pretendido um diálogo franco com o gênio de Bonn, Cerha é um senhor modernista e talvez essa seja a maior virtude da peça: trata-se de uma paráfrase, não uma paródia, sem qualquer apelo ao discurso das citações e bricolage tão comuns ao universo pós-moderno. Sim, Beethoven está lá, como uma sombra imponente, mas para o ouvinte apreendê-lo é necessário extremo e zelosa audição.

Devido a um braço quebrado, o diretor musical da Gewandhaus, Ricardo Chailly teve que cancelar sua participação. Alain Gilbert vem fazendo elogiadas temporadas como diretor da Filarmônica de Nova Iorque, e não deixava de ser uma boa oportunidade para entender o casamento destes dois mundos diversos que são a regência norte-americana e as orquestras alemães tradicionais. Gilbert já estreara frente a centenária orquestra de Leipzig no início de 2013, e marcava sua segunda participação com a orquestra acompanhando-a em sua turné européia e abertura da temporada 2014-2015. Uma aposta e tanto, em se contando a importância de ambos eventos. Aqui em Lucerna além da Nona Sinfonia, está programado para o dia 08 a terceira sinfonia de Gustav Mahler.

Ad astra per aspera é a senha para recepção de boa parte das obras de Beethoven. A redenção não apenas APÓS a trabalho árduo, mas a redenção POR CAUSA do trabalho árduo. A quinta sinfonia é assim: a fanfarra em dó maior do último movimento é o desdobramento do drama explícito de três notas curtas e uma longa que abrem as cortinas; do mesmo modo, a nona sinfonia: o canto de alegria do último movimento é o resultado das tempestades e paixões deflagrados pelo motivo do primeiro tema (o famoso ritmo iâmbico em quartas justas descendentes que inspirou Cerha…). No nosso evento de domingo o lema latino foi concretizado em ato. Alain e a Gewandhaus lutaram bravamente para a nossa redenção.

Lutaram? Sim, pois ouvimos menos a esperada colaboração democrática de duas mentalidades respeitáveis e mais o embate de visões de mundo, embate por vezes franco e aberto. A contenda contava num lado com o spalla Sebastian Breuninger; no outro, o simpático mas perseverante maestro nova-iorquino: cada um arregimentara para si parte da orquestra (a percussão, claramente tentando derrubar o maestro em uma ou duas vezes, os sopros se mostrando mais colaborativos…).

Já na primeira menção do tema, o desencontro dos violinos mostrou que aquela seria uma versão particular, o que se confirmou ao longo da performance. Ao palco do KKL Hall de Lucerna as duas “personalidades” se mostraram muito pouco dispostas a ceder em suas convicções e embora tentasse esboçar sorrisos protocolares aqui e ali, Gilbert encontrava invariavelmente inflexões rítmicas que estavam para muito além ou aquém de seu comando. Os pedidos de equilíbrio e dinâmica do maestro eram feitos de forma enfática; a resposta da orquestra era caprichosa: por vezes acolhida com alguns segundos de atraso; muitas vezes, sequer isso. Ao sorriso do simpático nova-iorquino contrastava a pedra de gelo da sisudez dos músicos alemães e os movimentos frenéticos de Bruninger – que claro, chamava assim, para si a responsabilidade da performance.

Beethoven por vezes precisa mais disso que de um milhão de ensaios e repetições. O resultado, mesmo que não tenha sido deliberado, foi mais do que positivo: catártico. Sem dúvidas, o evento mais tenso e talvez mais eletrizante desta semana. Com pequenos senões: a pouca convicção do tímpano no segundo movimento fez com que suas entradas soassem apenas corretas, o andamento dubio do terceiro movimento fez com que a orquestra perdesse o pathos no clímax da segunda variação… a passagem tola dos pratos que, antecipando deliberadamente por um lapso de tempo o momento de seu ataque, cria uma instabilidade (“pegadinha” contra o maestro?) pouco cabível à pompa da marcha militaresca que inicia a segunda seção do último movimento.

Tecnicalidades. Gilbert poderia ter tido uma noite mais fácil, mas não ter cedido em seu papel de líder fez com que a tensão de todo o grupo fosse segura até o final. Seu sucesso foi evidente e expresso com os urros de todos os cantos da platéia. Digo SEU sucesso pois talvez tenha sentido assim. Breuninger, de cara fechada, era ao final da performance a antítese perfeita da alegria que a música pode doar àqueles de espírito colaborativo (o que havíamos visto, didaticamente, nos dias anteriores com a orquestra de Amsterdã e Jansons). Toda a orquestra seguia sem sorrisos. A alegria de fazer música, no entanto, não é algo imprescindível. Gilbert mostrou que além de esporte de equipe, ou de jogo de inteligência, por vezes, uma boa performance de orquestra é resultado da mais pura, lúdica, franca e total guerra.

por Leandro Oliveira

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