Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Especial – Festival de Lucerna 2014 (II)

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No dia 04 de setembro, foi a vez da Royal Concertgebouw Orchestra Amsterdam, Mariss Jansons e o pianista Jean-Yves Thibaudet apresentarem-se em Lucerna. No programa, Johannes Brahms (1833-1897) com as “Variações sobre um Tema de Joseph Haydn”, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e a raríssima “Sinfonia No. 1” – feita pelo compositor quando sequer completara 19 anos – e Maurice Ravel (1875-1937) ocupando toda segunda parte, com o “Concerto para piano em Sol maior” e a segunda Suíte do balé “Daphnis et Chloé”.

Já não é novidade o resultado bombástico do último senso da revista Gramophone que, a partir de uma pesquisa com os grandes críticos musicais da Europa, vaticinou em 2008 que a Royal Concertgebouw Orchestra Amsterdam era a melhor orquestra do continente. Nos anos imediatamente anteriores à publicação, aquele que para muitos é o mais sofisticado regente de sua geração, o letoniano Mariss Jansons havia recebido o cargo de diretor musical do grupo, dando seguimento ao trabalho de altíssimo nível implementado pelos seus dois antecessores,  Bernard Haitink (1961 – 1988) e Riccardo Chailly (1988 – 2004). Para músicos e musicólogos, o resultado da pesquisa era em grande parte fruto do trabalho meticuloso do novo maestro.

Brahms talvez fosse uma aposta arriscada para o início do programa. Trata-se de uma obra de espírito escolar, cujos interesses maiores resultam da engenharia sofisticada por parte de Brahms no tratamento do tema. Pela sua estrutura cristalina e pela história de sua recepção, é antes uma obra arriscada para qualquer orquestra, não pela sua dificuldade intrínseca mas pelas tantas referências – fonográficas ou em performenace – que muito obviamente cultivamos todos que somos amantes da boa música. A RCOA nos apresentou uma interpretação de múltiplos interesses já na exposição do tema, com pequenas sutilezas fraseológicas, e algumas relações curiosas no tratamento do equilíbrio entre os naipes – que embora jamais acentuasse contrapontos exóticos, como sói acontecer em obras do gênero, mostrava uma riqueza tímbrica muito peculiar, fruto sobretudo do trabalho dos solistas de sopro, todos excepcionais.

Ainda na primeira parte, tive o prazer de ouvir pela segunda vez na vida o público reagir espontaneamente a uma piada musical sem palavras. O fato é raro por conta mesmo da natureza deste tipo de expediente, que requer não apenas atenção da platéia mas um tipo de domínio das expectativas que poucos compositores podem se dar ao luxo de arriscar. Tal domínio do idioma instrumental (por parte de Shostakovich) tem um em alemão um nome intraduzível: selbverständlichkeit. Se aplica quando a coisa fica tão evidente que dispensa explicações – o que é uma característica fundamental para uma practical joke. Tudo acontece quando no segundo movimento da Sinfonia op.10 de Shotakovich, há a famosa entrada do piano.

 

A passagem que cito está por volta dos 3’31” minutos (na versão acima temos uma entusiasmada mas radicalmente distinta construção do “problema” por Valery Gergiev), quando o piano resmunga um acorde grosseiro. O efeito esperado é claro, aquele da pitoresca bufoneria. Para resultar convincente, ou seja, para enfatizar o caráter humorístico da passagem, Jansons se vale de uma tática teatral: a seu comando os músicos de todos os naipes congelam o movimento, numa fermata na pausa que antecede a entrada do piano. E o ataque surge após com um pequeno gesto da mão esquerda, permitindo a entrada do acorde rabugento do piano toda sua carga sarcástica. O que fez o público de Lucerna? Simplesmente riu em alto e bom som, imediata e entusiasticamente. Uma delícia para todos.

Na segunda parte, o concerto em Sol de Ravel ganhou nas mãos de Thibaudet a expressão da obra-prima que é. Obra-prima moderna, que não nos impressiona pela densidade espiritual ou emocional, mas pelo magnetismo das suas ricas sonoridades e o ecletismo estilístico que Ravel antecipa às práticas pós-modernas. O Ravel de Thibaudet nos assegurou o que o texto prevê: um pouco de Gershwin, um pouco de Alban Berg, Debussy, Mozart, Saint-Saens… A obra-prima tornou-se clara pela engenhosa costura de curiosidade, sofisticação e cultivo de distintas linguagens que o compositor francês conseguira amadurecer. Além da certeza de que os pianos do Brasil precisam de urgente manutenção, foi um evento didático para que pudéssemos finalmente entender como é maravilhoso o som de um piano na mão de um verdadeiro mestre.

Ao final, na Suíte número dois de “Daphnis” entendi porque a Concertgebouw tanto impressionou os críticos da Gramophone. Às frases maleáveis e timbres individuais os mais diversos, à extensão dinâmica impressionante (pianíssimos e fortíssimos com nuances infinitos) já demonstrados nas obras anteriores, percebemos o entrosamento enorme que permite ao grupo a resposta imediata as idiossincrasias do momento, a oportunidade de uma performance verdadeiramente espontânea. Lembro, por exemplo, uma sutil correção dos rumos do fraseado na repetição do tema, que Jansons faz ao calor da hora e que é assumida imediatamente pelos outros instrumentistas de sopro, a calibragem e medida da dinâmica de um  percussionista… Além disso, e isso é muito, após dez anos de colaboração, a orquestra conta com o privilégio do sorriso franco durante e após a performance, expressão do moral alto mas também, e sobretudo, uma vivacidade e alegria de tocar que não poderia senão impactar positivamente o resultado da performance. Aplausos calorosos e mais de cinco retornos ao palco marcaram o final da noite.

por Leandro Oliveira

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