Especial – Festival de Lucerna 2014 (I)

No dia 03 de setembro de 2014, o Festival de Música de Lucerna programou o evento mais esperado: às 18h30, Orquestra Filarmônica de Berlim e Sir Simon Rattle apresentavam a premiada mise en espace do diretor americano Peter Sellars para a “Paixão segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Chamada pelo diretor de “ritualização”, a montagem contava com praticamente todos do elenco original da produção de 2010: Camilla Tilling (soprano), Magdalena Kožená (mezzo-soprano), Topi Lehtipuu (tenor – árias), o inacreditável Mark Padmore (Evangelista), Christian Gerhaher (baritono – Jesus). A novidade foi o barítono Eric Owens, que assumiu com muito garbo a difícil substituição de Thomas Quasthoff.

Ao vivo, me foi confirmada uma impressão já intuída pela gravação em Blue-Ray. Musicalmente, é espantoso perceber como a Filarmônica de Berlim pode funcionar como uma espécie de camaleão. O repertório de música antiga (aquele composto antes de Mozart) é desde muito tempo “protegido” por especialistas, com instrumentos de época e pesquisa filológica do texto original e tratados. O resultado são os timbres de diversos matizes, andamentos mais rápidos, fraseado com articulações sofisticadas e múltiplas, dinâmica cheia de contrastes heterogêneos – os elementos que são hoje ponto pacífico para interpretação de Bach.

Tais qualidades se formam ao longo das décadas de 50 a 90 do século passado, e tomam por antítese toda a leitura pós-wagneriana que assumimos como a sonoridade romântica alemã por excelência, uma espécie de ideal de sonoridade sinfônica internacional. Não à toa, tal sonoridade chega até nós cultivada em seu paroxismo pela famosa Filarmônica de Berlim – a despeito de pequenos desvios realizados por Herbert von Karajan por razão de suas convicções, ou “ideologia”, fonográficas.

Hoje, devido ao trabalho continuado de Abbado e Rattle, a Filarmônica é um Titã reeducado. E se provavelmente nunca mais ouviremos o tipo de orquestra que Karajan tinha em mente, hoje a orquestra sem dúvida ganhou muitos outros matizes. Simon Rattle é um maestro com uma sensibilidade muito especial para o repertório antigo e faz com que a orquestra, mesmo sem se valer da dicção mais aventureira dos grupos antigos radicais, como do Fabio Biondi e muitos outros, consiga metamorforsear-se mais do que convincentemente.

Peter Sellars comentou antes do concerto que com Rattle e a Berliner, Bach passava a ter uma nova leitura, inaugurando uma nova tradição – mutatis mutandi como fez Glenn Gould na década de 60. De algum modo, ele tem razão. Por ser o que é, a Berliner jamais deixa de soar como um grupo moderno mas na Paixão, à sua sonoridade opulenta, rica em harmônicos e graves poderosos, que jamais litiga com a flexibilidade e sutileza do equilíbrio entre os naipes, soma-se uma clareza de dicção e agilidade rítmica e métrica, incontroversos. Se Karajan foi o benchmarking das sinfônicas na era das gravações, a Mattheus Passion de Rattle e a Berliner marca a “nova” sonoridade a qual os grupos de instrumentos modernos deverão se comparar quando enfrentarem o repertório bachiano daqui pra frente.

PS: Uma anedota. À saída, encontramos o diretor de cena Peter Sellars (que não deve ser confundido com o ator Peter Sellers da “Pantera Cor de Rosa”). Fomos falar com ele que ao descobrir que éramos brasileiros disse ter muito do Brasil na montagem: a imagem das senhoras na praia de Itapuã que iam cantando despachar oferendas no mar, de pés descalços e vestidos azuis, nunca lhe saíra da cabeça; ele acha que de algum modo Bach e o Brasil se juntam um pouco nessa concepção já consagrada.

por Leandro Oliveira

Um comentário em “Especial – Festival de Lucerna 2014 (I)

  1. […] Trata-se portanto da perfeição que resume todas as qualidades positivas potenciais do piano. Ou, ao menos, de um certo piano. É sabido que tanto Claudio Abbado quanto Simon Rattle, os chefes subseqüentes da Filarmônica pós-Karajan, ao assumir a orquestra estavam imersos nas questões da dita historisch informierte Aufführungspraxis de Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt ou Anner Bylsma. Estes intérpretes historicamente orientados sabiam que se a Filarmônica da era Karajan era indubitavelmente um instrumento imponente e impressionante, o era ao preço de uma certa homogeneização de sua dicção. Aquele som extraordinário de Karajan, seguindo a grande tradição Wagner-Fürtwangler (com acréscimos importantes do ouvido e precisão dos engenheiros de som do pós-guerra) era ditado por um certo “peso” (o termo é do próprio Wagner) que limitava – ao menos em parte – muitas nuances de articulação e bania outras tantas oportunidades tímbricas. Os novos tentavam resgatar essas sonoridades em toda sua abrangência, e talvez o ponto máximo deste experimento aconteça exatamente com as “Paixões” de Bach gravadas recentemente por Rattle com a Filarmônica (falei a respeito em um post do ano passado que pode ser lido aqui). […]

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