Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

A cultura do rolê

A semana foi tomada pela discussão sobre o dito rolezinho – os eventos “meio arruaceiros, meio de esquerda”, para parodiar o título do livro do Toninho Prata, que tomaram de assalto (brincadeira inevitável) determinados shopping centers de São Paulo. Como trata-se de um fato cultural de muito mais fertilidade do que pode parecer à primeira vista, decidi dedicar um par de posts a respeito. Gosto de duas referências de contextualização do caso, ambas disponíveis na internet. A primeira saiu na Folha de São Paulo. Ele lida com fontes de alto interesse pois diretamente envolvidas no caso. Jornalismo de informação de alto nível. A segunda referência foi feita pelo xará Leandro Beguoci – que se deu o trabalho enorme de trazer fatos de sua biografia mesclado com alguma análise cultural ligeiramente impressionista, mas muito rica. O impressionismo no entanto faz com que suas conclusões traga diversas contradições argumentativas. Pretendendo ser um texto a reivindicar vícios de leitura à esquerda e à direita, infelizmente peca na ânsia de ser “do centro”. Em suma: um bom contexto, mas dele Leandro tira conclusões pouco consistentes. De qualquer forma, segue sendo uma ótima referência de compreensão do caso em tela. Ao longo da semana li e debati diversas opiniões a respeito. Assim amadureci as minhas próprias rebatendo – por vezes calorosamente – nas redes sociais e com minha companheira de armas. A diversão valeu a pena, o que é um duplo privilégio pois debater nem sempre é uma diversão, e fez a questão se adensar. Algumas opiniões públicas sintéticas que me interessaram (fortes, para maiores de idade) foram as de Rachel Sherazade e de Paulo Martins. A primeira apontando o que poucos deveriam discordar: é preciso haver limites no exercício de qualquer direito – limites que são, em maior parte, dado pelo próprio direito – e que as pessoas não deveriam fazer arruaça em locais privados de circulação pública. Quem resumiu nesses termos foi um colega de Facebook (que possivelmente detestaria se ver chancelando Sherazade, mas afinal, queira ou não, concorda com ela).  Já Paulo chama atenção do que é para mim o ponto mais importante: a politização de um caso que deveria ser, na prática, de segurança pública e, na teoria, de crítica cultural ou sociologia da cultura. Infelizmente, alguns textos de grande repercussão como o de Eliane Brum ou de Pedro Abramovay, se devidamente contextualizados pelas referências acima, perdem qualquer senso de oportunidade e tornam-se mero instrumento de proselitismo político. Mas pela repercussão tornam-se relevantes, sobretudo na compreensão do debate público acerca dos rolezinhos. A partir destes textos, eventos eminentemente recreativos e com excelentes questões estéticas desdobráveis em dilemas sobre decoro e cultura, viraram “manifestações”, e a reação a eles – ahimé! – “apartheid”.

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