Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Arte radical e idiotia


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Saiu o indulto aos pequenos criminosos por conta do aniversário de 20 anos da nova Constituição russa. Concedido pelo Parlamento local, trata-se de uma anistia de verdade já que, pelas palavras do presidente Vladimir Putin, “não se trata de uma desculpabilização dos seus crimes, nem de uma crítica aos tribunais”. Podemos entender, é apenas um esquecimento. Entre os recém libertos, três membros da banda Pussy Riot. O ato parlamentar se deu às vésperas do Natal no ocidente. Ironia pois sua prisão, em março do ano passado, foi devida a encenação dentro de uma Igreja Cristã Ortodoxa de uma “oração” anti-governo e anti-clero (naquele país, o alto clero apoia Putin).

A Igreja assumiu como blasfemas as ações que justificaram a prisão. As meninas da banda agrediram assim não apenas o governo – aliás, já haviam agredido o governo antes, sem maiores sanções – mas sobretudo a sensibilidade religiosa de grande parte dos cidadãos russos.

Detestaria passar meu final de semana defendendo o presidente Putin, mas este é o maior dano dos radicais: faz com que os intelectualmente honestos tenham que gastar tempo e, ao limite, posicionar-se ponderando a razoabilidade das ações de chefes de governo como ele. Para ser intelectualmente honesto, portanto, há que se ater ao fato de que havia na nova constituição russa a previsão da prisão por “vandalismo motivado por sentimento anti-religioso” e devemos colocar à vista a particularíssima realidade pós-soviética, para qual esse foi um ganho incomensurável.

O direito à profissão religiosa e o respeito à liberdade de culto é um avanço da sociedade russa pós-perestroika. Ou seja, ao ofender o templo e os religiosos, Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Yekaterina Samutsevich mexeram com algo análogo à nossa recente sensibilidade igualitária.

Por conta disso é que embora pudesse ser, em outro contexto, uma demonstração de cinismo político, a resposta de Putin é mais que correta, como aquela que se espera de um chefe-de-família: “tenho pena delas não por se encontrarem presas, embora não haja nada de bom nisso, mas por terem chegado a tal ponto que tenham tido este comportamento escandaloso, que do meu ponto de vista é humilhante para as mulheres. Elas violaram todas as normas para conseguir protagonismo.”

Tolokonnikova, Alyokhina e Samutsevich se tornam, com todo seu radicalismo, idiotas úteis à serviço da máquina interna da propaganda pró-Putin. Não há dúvida que o presidente ganhou pontos com seu público interno razoável, aquele que sabe que o limite de seus atos está no respeito a liberdade do outro.

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Publicado às 24 de dezembro de 2013 por em cultura e política, Explorações e marcado , , .

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