Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Entre os fernandos, fico com a Lima

fernanda lima

Fico sempre cá a pensar se quando Lula encontrou a metáfora dos postes para eleger Dilma e Haddad, mesmo que pessoalmente ignorasse a teoria, tratava de reeditar em nível nacional o apadrinhamento eleitoral típico da sociedade dos coronéis. Apadrinhamento particular, pois não apenas patrocina candidaturas, algo normal, desejável até em se tratando de política pública. Não há nada de especioso em votarmos nas indicações de nosso candidato, que garante aos eleitores alguma credibilidade na filiação. Nesses termos, Lula apenas dispunha candidatos à sua enorme base eleitoral.

A curiosidade é que Lula indicava figuras inexpressivas, fracas mesmo. Muitos diriam, “marionetes”. E aqui, o traço do coronel… Algo para os sociólogos. Sei que para justificar o auto-engano de parte do corpo mais sofisticado dentre seus militantes, os marqueteiros criaram para os candidatos ungidos a ideia do “técnico” e “gestor” de alto nível: Dilma recebe o epiteto “a gerentona”, mesmo tendo sido sob sua jurisdição o enorme black out que parou quase todas as cidade brasileiras; Haddad, “o executivo”, mesmo tendo feito sepultar umas das melhores idéias do ministro Paulo Renato, a do Provão, que permitia, pela primeira vez na história do Brasil, o diagnóstico anual de nossa (d)eficiência educacional. Sob a gestão do atual prefeito e então Ministro da Educação, a coisa se transformou no vestibular de critérios duvidosos pelo corte de alto teor ideológico e fraudes recorrentes a que chamamos de Enem.

Desconheço se nossos cientistas sociais e os psicanalistas estudiosos da cultura se debruçam ou não sobre esses assuntos, mas acho que daria pano para manga. Tanto a nacionalização do coronelismo quanto o auto-engano de nossa classe média são elementos extraordinários da cultura brasileira, latentes desde os primórdios da República. Mas o que os governos recentes fizeram foi dar água a tal solo fértil. Coisa para os estudiosos, e Ocidentalismo.com não é um site de política ou ciência política e sim de crítica cultural.

As observações que acabo de fazer são apenas para contextualizar uma sedizente entrevista de “O Estado de São Paulo” com Fernando Haddad, há quase um ano prefeito da capital. Não uma entrevista qualquer mas, com chamada de capa, aquela que pretende realizar uma espécie de acerto geral do primeiro ano de sua gestão frente ao município (“Haddad fecha 1o ano sob pressão das ruas, dos tribunais e do PT“, em Metrópole A25 e A25, de 22 de dezembro de 2013).

Jornalisticamente, portanto, a matéria é de absoluta pertinência. Mas Artur Rodrigues e Marcelo Godoy, seus autores, chamam logo de início a atenção justamente para a opção por “justificativas técnicas para diversas decisões” que teriam sido tomadas pelo prefeito ao longo do ano – o que é uma enormidade para ser afirmado sem provas, sem contraditos, ou sem o uso do termo tão querido em nossas redações, o “suposto”. “Supostas justificativas técnicas para diversas decisões” seria de bom efeito. E quase resolveria a apresentação da matéria.

Pois o caso é que com um mínimo de compromisso com a verdade, deveria ficar claro que embora se justifique assim, de técnico o prefeito não FEZ muita coisa: sua opção por acatar o pedido de tarifa de ônibus a R$3,00 não foi técnica (vide a briga pela sua manutenção vinte centavos mais caro), sua opção pelo IPTU acima da inflação não foi técnica (vide a querela judicial decorrente), sua opção pelas faixas de ônibus não foi técnica (vide o caos instalado na cidade). A opção pelo “liberou geral” na Cracolândia não é técnica. Todas são opções políticas, algumas ideológicas e calcadas na metafísica elementar da luta de classes. Sequer os acertos incontestáveis de Fernando Haddad, como o da criação da Controladoria Geral do Município, são assumidos em tom técnico – as denúncias de corrupção geradas por ali encontraram através do prefeito e seus comunicadores um inconfundível viés de “nós contra eles” (o que não à toa o fez desgastar-se com Gilberto Kassab)

Sobretudo, atendo-se apenas à entrevista, de técnico o prefeito não DIZ nada. Ao contrário: a qualquer oportunidade ele ataca o governo do estado (vide a menção aos protestos e segurança), o governo FHC (no capítulo renegociação da dívida), e os prefeitos – todos! – depois de… Marta Suplicy (capítulo faixas de ônibus, entre outros). Evidentemente, elogia o governo Dilma sempre que pode. Ou seja, ele apenas diz o que as forças políticas que o apoiam esperam que ele diga, defende sua famiglia e acusa seus adversários – a despeito de suas qualidades ou defeitos. Isso não é coisa muito técnica.

Não é técnico, não é muito nobre mas, vá lá, é do jogo político. Mas o jogo político não é o jogo jornalístico, Mas disso se trata o endosso dos jornalistas: a entrevista não apresenta qualquer contraditório, qualquer senão. Da forma como foi editada e diagramada, Haddad fala livremente, na primeira pessoa, tece elogios a si e critica erros como se dele não fossem. E assim temos o prefeito que causou uma série de polêmicas públicas na maior cidade da América do Sul, um ano após assumir o cargo, com uma página inteira de domingo no segundo jornal do estado. E para quê? Para voltar à retórica de campanha, comentando uma série de intenções sem qualquer plano executivo de operação que o respalde – se há dúvidas, basta ler com os próprios olhos quando fala do caos da região da Luz e Parque Dom Pedro. Esta lá: “nós queremos construir uma solução… vamos nos dedicar a esse território. Vamos resolver esses problemas.”

“Entendo… mas como, senhor prefeito?”

Essa é a pergunta, a que não foi feita.

Ironias do jornalismo: no domingo, ficou fácil perceber que a opção editorial da entrevista de Fernando Haddad para o caderno Metrópole do Estadão é, coincidentemente, a mesma da entrevista de Fernanda Lima para a colunista Mônica Bérgamo da Folha de São Paulo. Tampouco sabemos as perguntas feitas à Fernanda Lima e, lá como aqui, saímos com referências não mais que impressionistas das opiniões dos belos do dia. Na comparação, justiça se faça, a entrevista da Folha é até mais habilidosa em tirar do entrevistado algumas opiniões difíceis.

Quem lê ambas fica com a impressão que Fernanda Lima tem opiniões mais sinceras que Fernando Haddad, e que a Folha tem menos medo de seus personagens que o Estadão.

Do jeito que está, a entrevista de Haddad deveria ter saído pela revista “Poder” do grupo Joyce Pascowitch – ao menos, conta-se ali com a opção deliberada pelo positivo, conciliatório e incontroverso, qualquer que seja o caso em questão. Estando no caderno Metrópole de domingo, o Estadão deixa de cumprir aquela função pública do jornalismo que está para muito além de entreter a população, a de cobrar respostas objetivas dos agentes públicos.

A lástima deste post de Ocidentalismo.com é quanto o jornalismo do Estadão, não a política do prefeito. Ele foi eleito para fazer o que faz, e o caos que impera na cidade é em muitas medidas culpa dos eleitores. Mas o caso é que Haddad vem se mostrando um administrador controverso, mesmo entre seus pares petistas. Assim é por questão de fato, não de gosto. E assim seguiria sendo, mesmo contando com o apoio pessoal de Artur Rodrigues e Marcelo Godoy ou do jornal “O Estado de São Paulo” inteiro. Suas decisões fazem com que, entre a população, haja atualmente muitos mais entre os que o desaprovam, e para seus opositores a avaliação mais benevolente seja o de um incompetente cheio de boas intenções. Lastimável, reitero, pois há que cultivar um jornalismo muito fraco para tratar um personagem assim, no calor de sua notoriedade, como figura para colunismo da alta sociedade.

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Publicado às 23 de dezembro de 2013 por em Entrevista, meio e mensagem, OBSERVATORIO e marcado , , , .

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