Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

O silêncio dos inocentes

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A Venezuela acaba de perder seu Comandante – o militarismo não disfarçado do termo não deixa de ser de cafonice abissal – e com sua morte abrem-se as portas para um futuro nebuloso; como todos que estudamos história sabemos, a morte de um caudilho é sempre a oportunidade para guerras intestinas entre os correligionários de segundo escalão. Não sabemos quem poderá aglutinar as forças políticas venezuelanas após Hugo Chavez, e isso não é tarefa para análise ligeira.

Tenho amigos que costumam ser muito rigorosos quando enfrentam a relação entre arte e política. Para alguns deles os assuntos não devem se misturar ao preço da desarticulação de um e de outro; para outros, idealistas ou niilistas, a própria tentativa de relação é anátema, e seguem advogando a tese do modernismo pós-guerra, a arte como uma expressão ontologicamente apolítica: ontologicamente quer dizer aqui não que a arte deva evitar a discussão política – antes e por natureza, ela é incapaz de levar a discussão adiante.

Não deixa de ser melancólico. O problema de um sujeito não se interessar por política não é, como diz o adágio, ser governado por aqueles que se interessam: estamos sempre sob o governo ou chefia de alguém, em qualquer estrutura de organização, política ou não, e isso independe de nosso interesse. O problema de um artista não se interessar por política é que fica a um passo da pusilanimidade. E o medo é a ante-sala da paralisia, cujo preço é cobrado não nos momentos de alegria e festa mas nas raras decisões circunstanciadas pela vida e morte. Um artista deve interessar-se por política não para melhorar o mundo ou fazer passeata pelos botos cor-de-rosa, mas para fortalecer o espírito quando da eventualíssima necessidade da guerra. Como se diria onde nasci, para não “arregar” quando chamado à frente de batalha.

A música clássica teve na Venezuela chavista seus anos dourados: nestes últimos quatorze anos o país se viu pela primeira no centro do furacão do mercado, nos corações dos bem-pensantes e na mente dos especialistas; o nome para tal acontecimento chama-se “El Sistema” – o projeto do maestro José Abreu de inclusão social por meio da educação musical clássica. Sua relevância para o ambiente da música de concerto contemporânea pode ser medido pelo impacto na mídia de cada uma das apresentações de sua orquestra, pela influência extra-muros de alguns de seus alunos (alguém não ouviu falar de Gustavo Dudamel?), ou de artigos de críticos respeitáveis que apontam o projeto como salvação da música clássica (estamos, na alta cultura, sempre a espera do Armagedon).

Em tempos de Chavez, causa espécie o flagrante uso político do projeto. Embora “El Sistema” exista há mais de 30 anos, foi com as turnês internacionais patrocinadas por Hugo Chavez, e chancelados por artistas calibrados e filocomunistas como Claudio Abbado, que a orquestra deixou de ser um projeto de inclusão social para alcançar o status de Filarmônica de Berlim dos trópicos.

Qualquer um que a escute com os dois ouvidos forçosamente sabe que não é o caso.

Nestas oportunidades, de qualquer maneira, os músicos apresentam-se com um modelito de gosto duvidoso, a revisitação do moleton esportivo de Fidel Castro com as cores nacionais venezuelanas. Gustavo Dudamel – arte não pode tratar de política, certo? – jamais se absteve de ser a marionete de um projeto de poder, deixando-se instrumentalizar, conscientemente ou não, ao receber calado o prestígio das grandes orquestras e sociedades de concerto de todo mundo enquanto presenciava as agruras de seu país. Em termos políticos Dudamel não serve como porta-voz (fala a respeito apenas para justificar-se nos argumentos tolos de que “música é energia para alma“); Dudamel é a übermodel deste quimérico socialismo do século XXI, sua Christy Turlington.

Embora aparentemente não ligasse para música clássica, Chavez foi muito habilidoso em sua cooptação de uma instituição artística para fins políticos – um de seus últimos atos foi dar a direção de “El Sistema” a um de seus fiéis correligionários. Mais do que o financiamento – a compra de fato do projeto – assusta a compra das consciências, um artíficio nada raro no mundo da arte desde tempos imemoriais. Artistas quase sempre estão na penúria da próxima sinecura. No caso da Venezuela, dissidentes como a pianista Gabriela Montero são um alento pela coragem e a disponibilidade de arriscar sua carreira e conforto para dizer o que pensam; mas são casos raros.

Em sua entrevista para “Paris Review”, Woody Allen comenta achar curioso o tipo de auto-promoção que artistas fazem quando advogam a si mesmos o status de pessoas que “assumem riscos”.

Artistic risks are like show-business risks — laughable. Like casting against type, wow, what danger! Risks are where your life is on the line. The people who took risks against the Nazis or some of the Russian poets who stood up against the state — those people are courageous and brave, and that’s really an achievement.

Allen é um realista e fala da vida como ela é; para a vida como ela é, o acontecimento de fato não é enclausurar-se no edificio da beleza da arte e suas epifanias. Isso não é resistir, mas fugir. O que Allen não diz é que a fuga daqueles que tem os meios para fazer a diferença é tudo que os projetos totalitários querem. Para que as coisas tenham alcançado a dimensão que alcançaram na Venezuela, seus artistas influentes devem ter estado calados por tempo demais. Meus votos é que com a morte de Chavez um golpe de liberdade de expressão vente sobre aquele pobre país.

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Publicado às 6 de março de 2013 por em cultura e política, Explorações, falando de música e marcado , , , .

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