Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Os intolerantes

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Chateado com a recepção calorosa a Yoani Sánchez? Na Turquia, na última segunda feira, um artista para se defender de intolerantes de outra ordem, precisou se auto-proclamar autista.

Esta foi uma das alegadas defesas do pianista Fazil Say em audiência ontem onde, após postar tweets de provocação a algumas referências do Islã, é acusado de blasfêmia.

Fazil exordiu no mundo clássico em 1998 quando foi capa da Le Monde de la Musique. Tratava-se do típico “polêmico” – uma das máscaras com as quais classificamos os intérpretes do mundo clássico de nosso tempo. Como Glenn Gould, por exemplo, era responsável por uma leitura idiossincrática de Mozart (foi exatamente  a gravação das sonatas do compositor pelo poderoso selo Warner que o fez um queridinho), de improvisações pseudo jazzistas e otras cositas más; diferente de Gould, no entanto, é um bicho do teatro, que amava apresentar-se em público e contagiava a platéia em cada performance, sendo recebido por vezes com uma certa aura de culto que ia para além dos limites de sua qualidade artística.

Assinou com a Teldec por quatro lançamentos –  recomendo vivamente a Rhapsody in Blue  e I Got Rhythm Variations de Gershwin, com a Filarmônica de Nova Iorque, sob a direcção de Kurt Masur e o ótimo arranjo da Sagração da Primavera de Stravinsky, para piano a quatro mãos, onde toca as partes de ambos os pianistas (por esta recebeu o Echo Klassik, entre outros).

Após ser catapultado às estrelas, Fazil transformou-se um pouco. Passou a dar ênfase na sua produção criativa como compositor, e perdeu com isso parte importante da estrutura de marketing que justificava suas licenças; da Teldec passou para selos menores, e é hoje o que Drummond chamaria de um gauche na vida…

Não sei de questões doutrinais para assegurar se há ou não blasfêmia no caso – Say publicou uma frase onde associa a velocidade de certa oração à ansiedade para fazer algumas libertinagens – mas de fato, não há muita sutileza na coisa.

Nada disso me permitiria, evidentemente, justificar ou contradizer  a condenação em dezoito meses de prisão pelo ocorrido. Fazil é um ateísta confesso, e pelo jeito militante. Agiu no caso como um adolescente – mutatis mutandi, como agiram os organizadores da Parada Gay de 2011, a dos santos musculosos.

(Aqui, o pastor Silas Malafaia sugeriu que a Cúria fosse para o confronto direto, e por isso foi acusado de incitação à violência por uma Ong que defende o direito dos gays – e foi absolvido.)

Não é possível saber até que ponto os ofendidos – lá e cá – são sinceros. Mas no particular, é claro que a ofensa de Fazil é intencional. Os fãs do pianista defendem o estatuto de artista, que faria de Fazil uma pessoa especial (para sua defesa, especialíssimo, já que quase autista!). Muitos de nós reivindicaríamos a liberdade de expressão, o que, pelo que me parece, inexiste como premissa jurídica na Turquia quando o assunto é política ou islamismo.

O imbróglio, pela profusão de intolerantes, é desagradável.

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Publicado em 19 de fevereiro de 2013 por em cultura e política, Explorações, falando de música.

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