Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Nacionalismo e internacionalismo nas histórias em quadrinhos

casa grande em quadrinhos

A internet nos ajuda a participar da grande conversação com aqueles do passado. Alguns achados nos arquivos da internet são de absoluta pertinência – como este ensaio de Gilberto Freyre sobre histórias em quadrinhos e a discussão sobre o que é ou deve ser a literatura infantil. Gilberto Freyre diz coisas extraordinárias sobre as fronteiras entre gêneros e a questão da… censura prévia! Desfrutem.

Há quem deseje emendar a Constituição para aí estabelecer a censura prévia à literatura destinada a crianças e adolescentes. Alegam que é uma literatura toda especial. Sustentam que essa censura não põe em perigo a “verdadeira literatura”.

Engano. Quem diz literatura para crianças e adolescentes, não deixa de dizer literatura. Repito aqui o que já disse na Câmara quando ali apareceu a estranha ideia: as fronteiras entre gêneros literários são vagas. Vagas seja qual for o critério que se estabeleça para fixá-las. Inclusive o critério de públicos e público a que se destine cada gênero – menino ou gente grande, mulher ou homem, moço ou velho.

Rigorosamente, a literatura é uma só. Sua divisão em subgrupos é arbitrária ou convencional. Sujeito à censura um gênero, a ameaça recai sobre o todo. Quando se atinge a literatura para crianças e adolescentes é a literatura inteira que se ameaça. Mesmo porque são numerosos os livros para crianças e adolescentes que são também livros para gente grande.

Há anos, quando entre nós exagerou-se tanto o perigo chamado vermelho, isto é, comunista, que à sombra desse exagero cresceu o extremo oposto, houve quem começasse a enxergar “comunismo” em obras-primas da literatura brasileira e da universal. Inclusive em livros que são lidos com igual encanto por crianças, adolescentes e pessoas grandes. Por pessoas que leem soletrando e por doutores que sabem latim. Pois livros como as “Viagens de Gulliver”, o “Dom Quixote”, o “Robinson Crusoé”, os romances de aventuras de Robert Louis Stevenson, os de Cooper sobre índios, os de Walter Scott sobre castelos antigos, as próprias Fábulas de La Fontaine, ninguém sabe se são para crianças ou para gente grande.

E lembro-me, a este propósito, de fato que fez, há anos, muito estrangeiro rir-se a custa do Brasil: o de ter certa autoridade estadofortista, das que se julgaram com o direito de intervir na vida intelectual do país, condenado como perigosas à mocidade brasileira páginas imortais de Mark Twain. Note-se que essa autoridade era pessoa douta: professor do Pedro II, até.

Repito aqui o que já disse na Câmara, tentando alertar os deputados contra um perigo que se aproxima de nós com pés de lã, disfarçando em “proteção à moral” ou “resguardo do bom gosto”: consagrada pela Constituição a censura prévia à literatura chamada infanto-juvenil são os Mark Twain, os Robert Louis Stevenson, os Cervantes, os Defoe, os Swift, os La Fontaine, os Andersen, os Walter Scott, os Cooper, os Monteiro Lobato, as Lúcia Miguel Pereira, os José Lins do Rego, os Luís Jardim, que podem vir a ser condenados amanhã como “comunistas”, “corruptores da juventude”, “daninhos” ou “perniciosos” à formação da mocidade. O conceito do que é “pernicioso” em literatura ou em arte é vário e elástico. O conceito do que é decente ou decoroso, também. Na época Vitoriana, entre os ingleses mais rígidos no seu moralismo, não se dizia perna de mesa ou perna de cadeira na presença de senhoras, para não sugerir a imagem de perna de mulher. Também varia o conceito da literatura que convém, segundo os preconceitos do país, ao desenvolvimento da personalidade dos filhos. No meu tempo de menino, muito pai brasileiro condenava com aspereza os romances de detetive do tipo das Aventuras de Sherlock Holmes, considerando-os não apenas inconvenientes à formação moral dos filhos, como “vulgares”, “perniciosos”, “daninhos”. Quando algum meninote era apanhado por um pai mais rigoroso com um fascículo de Conan Doyle nas mãos, era como se estivesse praticando feio pecado. Era como se estivesse lendo as histórias mães ou avós das histórias de quadrinhos. Entretanto, Sherlock Holmes é considerado uma das criações mais interessantes da literatura inglesa dos fins do século XIX e dos começos do atual; e, do ponto de vista ético e educativo, tido por leitura saudável e boa.

Dos grandes poetas brasileiros de hoje há um que às vezes escreve poemas para crianças. É Manuel Bandeira. Mas o poeta Manuel Bandeira num dos seus poemas refere-se a certo cachorrinho que fazia pipi no jardim. Temo que por essas e outras liberdades de palavra, sua poesia pudesse vir a ser condenada como “indecente”, “vulgar”, “perniciosa” para a mocidade se, amanhã, estabelecida na Constituição a censura prévia à literatura infantojuvenil, essa fosse exercida por pedagogos ou policiais estreitos ou arcaicos em suas ideias de moralidade ou vulgaridade.

A verdade é esta: todos podemos estar de acordo quanto ao que seja baixa vulgaridade ou pura obscenidade na literatura ou na arte. Mas há um ponto em que a vulgaridade é aparente: o que há é realismo. Há zonas de confusão fácil entre os dois. E na discriminação o censor simplista poderá imaginar-se na defesa ou resguardo do que o bom gosto tem de essencial, quando está apenas defendendo convenções já arcaicas e até estreitos preconceitos de grupo, política, literária ou economicamente dominante.

De modo que, estabelecida num país como princípio constitucional, a censura prévia à palavra, em qualquer de suas expressões literárias, a censura prévia ou pensamento, em qualquer de suas formas de criação ou de crítica, a ameaça se estende sobre o sistema inteiro de liberdade de consciência, de pensamento, de ideia, de criação artística, sobre o qual repouse a organização democrática do mesmo país.

E desgraçada da sociedade com aspirações a democrática que, para viver decentemente, para conservar-se moralizada, para desenvolver sua cultura, para manter sua religião, não disponha de outros meios de conservação e desenvolvimento desses valores morais, intelectuais, estéticos, religiosos, senão o braço forte do gendarme e o lápis vermelho do censor. Recursos para os dias excepcionais ou de calamidade: nunca para os normais e comuns. Nos dias normais quem deve guardar a mocidade, educá-la, aperfeiçoá-la, é menos o estado, através dos seus policiais e dos seus censores, que a comunidade inteira por meio de suas instituições de cultura articuladas umas com as outras para fins socialmente construtivos.

Da campanha que se vem fazendo, entre nós, contra as histórias de quadrinhos – e não apenas contra os excessos ou os abusos que se cometem neste gênero de literatura destinada a meninos e a adolescentes, mas saboreado também por numerosos adultos – é possível que resulte um bem: o de despertar nos principais responsáveis pela publicação dessas histórias, deveres que vinham sendo esquecidos por eles. Deveres de vigilância contra aqueles excessos e contra aqueles abusos.

Mas todos os que não compreendem que se mate um homem com um remédio heroico – contanto que se feche de repente a ferida que vinha avermelhando o rosto ou apostemando o pé do pobre homem – desejam que esse resultado seja atingido sem alterar-se a Constituição para aí introduzir-se este perigo mortal para uma democracia: a censura prévia à literatura. Porque quem diz censura a qualquer gênero de literatura, diz literatura dirigida, diz fascismo, diz totalitarismo numa de suas piores expressões. E não é justo que se chegue a tanto só para se acabar com os excessos ou os abusos das histórias de quadrinhos.

A verdade é que, em si mesmas, as histórias de quadrinhos são uma forma nova de expressão contra a qual seria tão quixotesco nos levantarmos, como contra o rádio, o cinema falado ou a televisão. Como o rádio, o cinema falado e a televisão, as histórias de quadrinhos concorrem para o desprestígio da leitura dos longos textos para favorecer as suas dramatizações sintéticas, breves, incisivas. Mas o que se deve ver aí é uma tendência da época: uma época caracterizada pela ascensão social de massas sôfregas, antes de síntese e de resumos dramáticos de fatos da atualidade e do passado, que de demorados contatos com o livro, com a revista, com o jornal, com o teatro, com o cinema ou com o próprio rádio.

A essa tendência da época a história de quadrinhos corresponde admiravelmente. E um meio atualíssimo de expressão cuja substância deve ser, quanto possível, purificada de excessos, vulgaridade ou abusos – até aí têm razão os jornalistas, educadores e parlamentares empenhados em combater as histórias de quadrinhos – mas cuja forma ou cuja técnica, em vez de repelida, deve ser utilizada em escala cada dia maior pelo escritor, pelo artista, pelo educador desejoso de influência sobre o massa.

O missionário jesuíta deixou-nos, dos seus grandes dias de esforço heroico de cristianização de gentes pagãs ou bárbaras, esta lição digna de ser seguida pelos que hoje se dedicam, em países como o Brasil, a obras de recreação e, ao mesmo tempo, de educação do grande público: a lição de que os meios de contato do educador ou do artista com as massas devem basear-se nos hábitos, na capacidade e no grau de desenvolvimento intelectual da gente a que se dirige. Por isto o Jesuíta inteligentemente recorreu, no Brasil do século XVI, aos cantos, à música, e às danças dos indígenas. Recorreu às trombetas, aos ruídos, às cores vivas, aos estandartes vistosos O que os admiráveis padres queriam era ganhar a atenção, o interesse e a curiosidade da massa indígena. Sabiam que não alcançariam nunca este fim com a simples leitura, em voz alta, das Escrituras, com sermões, com discursos ou mesmo com a representação de comédias ou autos. De modo que se serviram de técnicas de persuasão, educação e recreação da massa à altura do desenvolvimento intelectual dos caboclos. Anteciparam-se neste ponto aos industriais norte-americanos, mestres da propaganda comercial, e aos fascistas e nazistas europeus, exímios na arte de persuasão política de massas.

Fossem hoje os jesuítas a mesma força espantosamente ativa que foram no século XVI e eles é que estariam se utilizando, em países como o Brasil, da técnica da história de quadrinhos para a educação e recreação da massa brasileira de meninos e adolescentes, dentro dos ideais cristãos de vida e de cultura. É o que devem fazer hoje os bons educadores, artistas, intelectuais e jornalistas: dominar a nova técnica de educação e recreação do menino e do adolescente que é a história de quadrinhos.

Em vez de se deixarem envolver pelo horror furioso à história de quadrinho, devem servir-se dessa técnica, melhorando-lhe a substância e purificando-lhe o conteúdo de excessos de sensacionalismo, de vulgaridade e de mau gosto. Nada de polícia nem de censura prévia à literatura para a solução de um problema que não se resolve nem com a polícia nem com a censura.

Resolve-se é com esforço, com inteligência e com bom-senso e havendo cooperação dos diretores de jornais e revistas com os pais, com os mestres, com a Igreja, com os diretores de escotismo…

por Gilberto Freyre – na íntegra aqui.

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Publicado em 8 de abril de 2011 por em Ensaios, livros, OBSERVATORIO.

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