Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Debates Dicta – Vargas Llosa

Começou de fato a seção “Debates” do site da Dicta. Infelizmente, a regra não ficou muito clara até agora: não sabemos quais golpes podem ser dados, se acima ou abaixo da linha da cintura; ou seja, não sabemos qual o limite de réplicas e tréplicas, quanto poderá demorar a querela, qual a periodicidade de publicação, qual o número de debatedores, e mais do que tudo, quem faz a mediação – se é que há alguma. (Pareceu-me o Julio Lemos, o que seria genial. Esperemos.)

Regras são boas para pautar o público e, afinal, dar algum norte.

E se isso é, por assim dizer, um problema formal, há outro. O início da editoria começou, contra todas as recomendações (decoro?) para uma boa pancadaria intelectual, com o coro dos contentes. Eduardo Wolf, que certamente poderia bem ter feito o advogado do diabo, vestiu a a carapuça do bom moço que tão mal lhe cabe, e fez não mais que o inventário das assertivas de Vargas Llosa. Foram duas ocasiões (aqui e aqui), algo como uma apresentação do original. Mas pontos importantes do texto de Llosa ficaram soltos, outros muito pouco relevantes – como a patrulha internacional, que no texto não estava – foram nitidamente privilegiados.

O que levou à inevitável aparência de um não-debate. Como não poderia deixar de ser nestes casos, a seção dos comentários (onde estão o Casagrande, o Falcão e o José Roberto Wright que somos todos nós) serviu bem como termômetro: e o engajamento público reverberou com Wolf, antes de tudo, a concordância com os termos de Llosa, além de alguma perplexidade.

Disse perplexidade, senão constrangimento, ao menos para os espectadores que gostamos, talvez de um chute à la Anderson Silva ou, que seja, de algumas trocações para estudo de distância. Coisas do início do jogo, posicionamento para compreensão do adversário, algo como experimentar como entra o jab ou medir a força do cruzado do oponente… Tudo seria válido. Mas a forma como nos foi apresentado, afinal, tornava altamente questionável o valor da contenda: brigar para afirmar o que todos concordamos? Mais do que tudo, de “debate” tal coisa se tratava?

Agora, com o artigo de hoje do Guilherme, dá-se início, espera-se, ao contraditório. Como todos podem ler ali, de forma enfática, Guilherme levantou algumas boas contradições – infelizmente, ainda, contradições de Wolf, apenas de soslaio, Llosa.

E aqui o busílis. Quem será macho para bater no homem? Estamos em uma luta desigual, entre peso-pena que somos todos frente ao peso-pesado que é Llosa. Sem dúvida, mas isso já sabíamos. Então, ostia!, que ao menos possamos forçar algum clinch. Há como? Claro! Mas há no ringue alguém para levantar a visão conservadora que assuma como válida a compreensão antropológica da dimensão da cultura (Mircea Eliade, Walter J.Ong)? Alguém vai acusar a avaliação de Llosa da auto-suficiência da cultura laica (Joseph Ratzinger, Jacob Neusner)?

Mais: quem vai esmiuçar a aparente contradição entre sua definição de cultura, aquela citada por Wolf, como “algo que antecede e sustém o conhecimento, uma atitude espiritual e uma certa sensibilidade que o orienta (…), algo assim como um desígnio moral”? Os termos são muito pouco precisos e a bem da verdade altamente questionáveis tal como postos. Mas abrem luz a um ponto decisivo: afinal, a forma como conhecemos é um dado da cultura ou algo atávico? Pois se cultura “antecede o conhecimento”, como ele afirma, devemos entendê-la como algo pré-consciente – senão, devemos assumir “conhecimento”, aqui, de forma bem específica. Talvez uma piscadela no Bernard Lonergan possa ajudar a melhor definir “conhecimento” e sua acepção específica tomada pelo Llosa; talvez definindo melhor o que é “conhecimento” tenhamos mais claro uma hipótese sobre o que é “cultura” (Yuri Lotman?)… Talvez?

Perguntas, perguntas sem fim. Mas não fui convidado para entrar no octógono – e se fosse, não aceitaria pois, como se vê, seria necessário muito preparo, para o qual não tenho tempo. Aguardo de camarote, como todos vocês. O que percebo, por enquanto, é um massacre, onde Llosa está mais para Muhammad Ali – apavorando a todos antes do sinal sonoro, deixando a todos rendidos quando não derrotados por W.O.

Com tal postura, perdemos uma boa oportunidade. Nós que estamos para aprender com Llosa, Wolf e tutti quanti vemos mais uma vez o discurso único típico dos monólogos, não dos debates. Pois, so far, todo mundo joga o jogo de Llosa: mas no campo dele, escusado seria dizer, o cara merece o prêmio Nobel.

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Publicado às 11 de março de 2011 por em Crítica, OBSERVATORIO e marcado .

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