Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Como arruinar um concerto

O título acima não é meu, mas de Tom Service, um dos blogueiros do “The Guardian” e responsável sobre as resenhas de música clássica. Dava conta, ali, do último evento do mini-festival que a Filarmônica de Berlim ofereceu ao público londrino esta semana.

Mas antes deste anti-climático desfecho, os fatos: à parte alguns concertos no Proms e outras pequenas incursões, desde que tornou-se regente titular da Filarmônica de Berlim – em 2002 – Sir Simon Rattle havia feito poucas aparições em Londres. Desta vez, o seus fãs domésticos (Rattle é inglês, tendo construído toda sua carreira em Birmingham) teriam a oportunidade de ouví-lo por uma semana, com esta que é decididamente a mais refinada e poderosa formação orquestral do universo, em cinco concertos consecutivos. Os eventos aconteceram no Queen Elizabeth Hall, o Barbican e o Royal Festival Hall, e foram recebidos com o tipo de carinho e frisson que os concertos da Osesp suscitam nas cidades do interior do estado. Mas, o extraordinário, é que, no caso, a “cidade do interior” era Londres: o público esgotou as vendas rapidamente, quase como um show do Michael Jackson.

A coisa toda ficava ainda mais interessante nesta rentrée pois é sabido que, finalmente, a relação entre Rattle e a orquestra – na verdade, mais do que a orquestra, o público de Berlim – havia encontrado uma espécie de equilíbrio. Após a lua-de-mel dos dois primeiros anos, algumas brigas incendiadas pela crítica alemã (ainda existe crítica em algum lugar) criaram um evidente mal-estar na relação de Sir Simon e a instituição.

Como resume Lebrecht, the question being asked is whether he has the intellect, the emotional strength and the clarity of purpose to develop the orchestra for a very different age of media dissemination. Ele tinha tudo isso: a Berliner é hoje não só uma das orquestras mais vipadas como também benchmark em suas revolucionárias iniciativas de exploração deste extraordinário mundo digital, com seu Digital Music Hall ou sua programação de entrevistas, masterclasses e trechos de ensaios online – de cair o queixo, e divulgados exemplarmente pelas tantas redes sociais como Facebook ou Twitter.

Isso dá conta de como estes dias foram preparados pela mídia, pelo público e pelos músicos. Era a chegada da mensagem musical pelas mãos do filho pródigo; o retorno de Ulisses à pátria.

Para saber sobre os concertos, sugiro as resenhas de Erica Jeal, George Hall, Andrew Clements e Tim Ashley, sabendo que o ponto culminante do evento foi a Terceira Sinfonia de Mahler, recebida elogiosamente por Lebrecht. Um furor.

E, com o furor, o anti-clímax que nos conta Tom Service. Por tratar-se de uma tragédia a que todos nós somos mercê, traduzo – livremente – para que entendam como pôde terminar em ruínas a temporada desta que é non plus ultra entre as orquestras mundiais.

Então, tendo levado o público às alturas do êxtase romântico com o grandioso hino de amor e compaixão no finale da Terceira Sinfonia de Mahler, a residência londrina de Simon Rattle com a Filarmônica de Berlim chegou a sua conclusão radiante ontem à noite. Uma música que termina com um enorme acorde final, uma apoteose em Ré maior que parece nos permitir entrever o infinito. O silêncio após a execução era a chance de deleitar-se na incandescência da imensidão da obra, sua arquitetura cósmica e o som igualmente cósmico da Filarmônica de Berlim.

E foi este momento de arrebatamento e embriaguez coletiva que foi arruinado por algum idiota (eejit no original, uma deliciosa gíria galesa) quando, no Royal Festival Hall, gritou “bravi!” – de algum dos camarotes, tenho quase certeza – antes que qualquer um de nós, incluindo a orquestra, tivesse a chance de retornar à Terra novamente. Não há violência maior por parte de um membro da audiência que valer-se deste momento único onde o tempo parece parar ao final de uma grande performance, apenas para, egoísta, fazer seu “grito solo”.

E ainda houve esta pretensão ridícula de usar o plural italiano, bravi, como que para mostrar ao resto da audiência, e Rattle e seus músicos ainda mais, que ele é suficientemente esperto para saber a terminação correta dos adjetivos plurais italianos – ao invés de usar bravo que todos neste país reconhecem e empregam. Deveria haver multa para este tipo de coisa (assim como para a percussionista de jóias que Charlotte Higgins descobriu no assento S62 do Barbican), sanções que tornassem claro que você ultrapassou seu direito de ouvir Mahler ou Bruckner em público – pena a ser cumprida até que você aprenda que não é maior ou mais esperto que ninguém.

Na verdade, isto é hooliganismo musical, psicopatia narcisista e destrutiva. Viemos ouvir Mahler e a Filarmônica de Berlim ontem à noite, cara, não um solo de alguém que quer mostrar a nós o quão mais esperto é de todos pois sabe quando a música terminou. Alguém lá naquela noite sabe quem este sujeito é, seguramente – assim como quem era o proprietário do telefone celular que soou duas vezes nos primeiros movimentos. É com vocês.

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Publicado em 27 de fevereiro de 2011 por em Explorações, falando de música.

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