Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Onde explico por que os amantes de cinema devem exigir a extinção do Belas-Artes

“Some people leave money for the improvement of public buildings
I can leave dynamite for the improvement of public buildings.” (G. K. Chesterton)

por Leandro Oliveira

Nome não é destino, mas cidade de nascimento sim. Embora more em São Paulo e tenha adotado a cidade como minha, o fato é que minha carioquice é inescapável. E devo a ela, acredito, o fato de quase concordar com os argumento do Eduardo em sua análise sobre o Belas-Artes.

Como assim? Talvez boa parte daquilo que reconheçamos como a velha e boa tradição carioca seja fruto de uma espécie de espírito de elite cultural – decadente é claro – que atravessa as nossas gerações desde a transformação da cidade em capital do Império. E Wolf, apesar de gaúcho, é um aristocrata nato. Sua análise é mais que válida, necessária, sobretudo por seu, por assim dizer, norte moral. Afinal o que é o seu texto senão o pedido de uma petição de princípio, um convite pleno de bom-senso sobre o papel da cultura e das ações culturais permanentes?

E quanto a ele, ao norte eu digo, nada devemos contrapor. Ao menos em um site de boa-família como Ocidentalismo.org.

Se retorno ao caso Belas-Artes, daqui por diante “o caso”, é por encontrar ali ainda pontos de interesse, mesmo a partir das premissas do velho Wolf. (O Wolf é um geriatra nato, para quem não sabe). E o retorno a “o caso” pode esclarecer um pouco nossa maneira de pensar cultura como empreendimento social.

Por sorte Ocidentalismo.org tem suas idiossincrasias, e uma delas é não termos reunião de pauta. O que faz com que cada um escreva sobre os problemas específicos que nos colocamos a partir da própria posição. E discutimos assim, como vira-latas, em público. É bom para o debate, aprendo muito sempre. Assim, mesmo sem o saber, Joel Pinheiro da Fonseca veio em meu socorro, salvando-me do surto aristocrático e fazendo-me retornar à boa e velha terra do empreendedorismo. Existe uma espécie de São Paulo mental e é a ela que recorro para entender “o caso” e melhor me explicar ao leitor.

“O caso” foi entendido até então como um problema de livre-iniciativa. O tema em sua dimensão econômica foi esgotado em termos irrefutáveis pelo Joel. Pois, vida dura, a livre-iniciativa precisa cultivar a permanente adequação de seu projeto inicial às tantas exigências da realidade. É a realidade, antes de tudo, que exige mudanças permanentes. Mas algo não muda: as coisas têm seus custos, e se o Belas-Artes, com todo esforço de seus gestores, que sei não foi pouco, para mantê-lo de pé, se o Belas-Artes, eu dizia, fecha, é por que seu público não o consome mais na proporção de suas necessidades operacionais. As solução são tantas, e uma é simples: que reavalie sua proporção e diminua seus gastos. Como? Pagando, por exemplo, um aluguel mais barato. Se o dono não paga, alguém vai pagar – e esse alguém, em caso de tombamento, somos eu e você.

Wolf argumenta de forma intrigante sobre a necessidade de preservação da alta cultura a despeito de suas finalidades comerciais. A bem da verdade “o caso”, nesta esfera em que Wolf sugere, passa da dimensão econômica para política. E para falar em dimensão política, devemos dizer de impacto e qualidade. Politicamente, assim, o problema é ainda mais simples: enquanto espaço de cinema de arte, o Belas-Artes não é bom. Pouco público e maus serviços. Por isso não é possível mantê-lo em um local caro como a Consolação apenas por sua antiga funcionalidade.

A experiência de ir ao cinema, assim como a de assistir teatro ou concertos, é completamente diferente in loco e in vitro. Então tanto faz se os títulos de clássicos cult do cinema estão disponíveis. E aí está o busílis: garanto que se tivesse uma programação inequívoca – ou seja, dedicada a clássicos, filmes B, filmes orientais etc… – e, para além disso, salas modernas, acessos confortáveis, decoração adequada, um café simpático, uma livraria condizente, programação infantil e educativa em horários convidativos para as escolas de rede pública, o Cine Belas-Artes bombaria de gente. Eu iria, o leitor e seus filhos iriam, até o Wolf – que é mal-humorado mas inteligente – iria. Nenhum de nós trocaríamos a ida ao espaço por um clique de computador. Assim como nenhum de nós deixa de ir à Livraria Cultura ou deixaríamos de comprar uma excelente edição crítica revisada da Ethica Nicomachea de Aristóteles apenas por as termos disponíveis online pela internet.

Mas, mais do que nós, em tal lugar aprazível e cheio de gente, sobretudo os patrocinadores iriam. Não quero dizer com isso que o espaço daria lucro, que seus donos se tornariam milionários, mas o Belas-Artes teria condições de capilarizar-se suficientemente para agora, em época de crise, justificar inclusive uma eventual democratização de parte de seus gastos (eufemismo para o uso da grana que pagamos em impostos). Mas, então, uma democratização plenamente justificada já que respeitosa àquela regra implícita da gestão de recursos públicos: um Real mal empregado é caro; cem milhões de Reais bem empregados não é caro, é apenas muito dinheiro.

Sem um projeto decente de médio prazo para ocupação com qualidade o tombamento do Belas-Artes é um acinte não por ter um público desqualificado e roto ou por ser dedicado a um nicho que não paga o que por lá se oferece; o tombamento do Belas-Artes é um acinte por ter, tal como está, sua real vocação corrompida.

O que quero dizer? Uma tradução mal feita da Ethica Nicomachea não só é um gasto ruim: ela é perniciosa aos leitores amantes de filosofia, à própria filosofia. Um filme de arte apresentado em sala tosca – com som horrível, cadeiras barulhentas, cheiro insalubre e falta de isolamento acústico -, não possibilita qualquer boa experiência; é ruim para os patrocinadores, desrespeitoso aos artistas, irritante aos cinéfilos e potenciais amantes. Aqueles que respeitam verdadeiramente a Sétima Arte deveriam ao contrário, exigir o fim do Cine Belas-Artes!

É isso que explica que a Osesp custe muito dinheiro mas não seja cara – embora seja despendido nela certamente mais de duas vezes o que se gasta na orquestra do Theatro Municipal. A bem da verdade, e isso me dói escrever, nos termos em que está hoje, assim como o Belas Artes, seria melhor que a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal acabasse. Exatamente pelo mesmo motivo de um Belas Artes: o serviço que oferece não é condizente com o investimento público realizado. Para além do mal que faz à tradição a qual ela se insere, uma orquestra de ópera que não apresenta qualquer ópera em três anos faz menos bem que mal a seu público. Sem falar de nossos bolsos.

Ao que me resta, nessa pequena querela, uma pergunta do Joel em comentário ao texto do Wolf. “Eu só tenho um problema. Muito aí no seu texto depende da ‘escolha da sociedade’. O que é, e como conhecer, a escolha ‘da sociedade’? É a escolha dos políticos no poder? Da maioria da população? Dos mais inteligentes? De quem?”

A isso não saberia responder, embora tenhamos no Brasil a prática de um pool tomando tais decisões – governantes, acadêmicos, jornalistas e os grupos de pressão, cada vez mais numerosos e distinguindo-se antes de tudo pelo barulho que fazem. Mas a pergunta é melhor que a resposta já que no fundo Joel argumenta não por quem faz mas quem deveria fazer tais escolhas.

Temo que sua resposta seja “o mercado” – o que a mim, com meus parcos domínios de economia, seria fácil de convencer… Mas, ignorante que sou, romântico quiçá?, tendo a sair pela tangente. Não acredito que tais entes abstratos existam – e portanto, não existindo, não poderiam decidir sobre nada. Não são “o mercado”, “os poderosos” ou “o Estado” que escolhem. São pessoas. E assim, a resposta acaba sendo dada no cotidiano, é dada quando vamos à ópera, aos cinemas, lemos a Dicta, sintonizamos o rádio ou assinamos temporadas de dança e concertos. É dada individualmente. Respondemos à pergunta “O que é a escolha da sociedade?” ao apostarmos pessoalmente naquilo que reconhecemos como necessário a nosso próprio cultivo.

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Publicado em 21 de janeiro de 2011 por em cinema, cultura e política, gestão cultural.

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