Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Woody Allen e a crônica do vencedor com batatas

Woody Allen é hoje um autor familiar. Conheço seu charme, sua “gramática”, seu timing e humor. Conheço? Não… de fato, minha surpresa a cada filme só seria “conhecimento” na medida em que um cão “conhece” um açougue: esta é minha familiaridade, tal qual a de um vira-lata a babar por cada música paradoxal, cada frase bem dosada, cada trejeito bem dirigido.

O prazer é de outra ordem que não a canina, bien sûr, já que minha relação com os filmes de Woody não é aquela das visceras, mas do intelecto. Em seus filmes, a cada um deles, Woody Allen é sempre mais inteligente que eu. E eu adoro estar com gente inteligente. E quando digo “cada um deles” I mean it: quero dizer todo e qualquer filme. Allen faz sempre filmes superiores. Acontece assim, se me perdoam a tautologia: uma grande obra de um criador menor é “apenas” uma grande obra; uma pequena obra de um criador genial é sempre obra de um criador genial. Por isso, os filmes menos inventivos de Woody são interessantes; os mais ordinários são extraordinários.

Mesmo sabendo disso, sou rotineiramente pego de calças curtas. Quando assisti “Whatever Works” pensei estar à frente de uma obra outonal. Afinal, o que é a primeira marca da decadência artística senão a auto-complacência, a preservação do efeito fácil e a reverberação das próprias certezas? “Whatever Works” me pareceu um filme feito para agradar e sua aparente vitalidade era apenas aparência exatamente por ser menos fruto de energia vital que da vontade senil de mostrar-se enérgico. E claro, nada mais melancólico que uma vontade estéril.

“Whatever Works” era entretenimento excelente. That’s it. O caso é que, se isto não deveria ser entendido em hipótese alguma como um mal em si (queria eu poder fazer algo “bobinho” se naquele nível), era notadamente triste quando visto à luz de “Manhattan” ou o recente “Match Point”.

Mas a mais infeliz tarefa de um analista é decifrar a obra de um contemporâneo. O caso é que se “Whatever Works” pode ser tudo isso que apontei, pode também ser completamente outra coisa. E não precisamos ser muito generosos: mesmo que jamais uma “obra-prima”, ele pode facilmente ser entendido como a primeira seção de um díptico, que tem em “You Will Meet a Tall Dark Stranger” sua segunda e conseqüente parte.

Pois aquilo que em “Whatever Works” é estrutura de funcionamento, em “You Will Meet” é força motora. Que o primeiro seja otimista e o segundo um dos filmes mais tristes que vi, apenas excita a tese: num mundo caótico, tudo dá certo apenas na medida em que nada for relevante. Afinal, a alegria dos convivas da festa de final de ano que encerra o primeiro filme é apenas alegria aparente – Boris Yelnikoff está lá para nos dizer o tempo todo que aquilo é um filme apenas (Verfremdungseffekt, para os sabidos); no segundo, Allen nos dá a chave para a “vida real”: no mundo como ele é, os felizes são apenas os idiotas que, em suas histórias “cheias de som e fúria”, alegram-se com suas vidas ridículas.

A referência ao texto de Macbeth é do próprio Allen, pela voz em off no final do filme. Os “idiotas”, no caso, os velhinhos Helena (Gemma Jones, linda) e seu novo namorado que acreditam em vidas passadas – ela sendo a encarnação de Joana D’Arc, ele a de um simples camponês do interior da França. Em uma entrevista sobre o filme, para o New York Times, Allen comenta que

To me there’s no real difference between a fortune teller or a fortune cookie and any of the organized religions. They’re all equally valid or invalid, really. And equally helpful. (…) I was interested in the concept of faith in something. This sounds so bleak when I say it, but we need some delusions to keep us going. And the people who successfully delude themselves seem happier than the people who can’t. I’ve known people who have put their faith in religion and in fortune tellers. So it occurred to me that that was a good character for a movie: a woman who everything had failed for her, and all of a sudden, it turned out that a woman telling her fortune was helping her. (…)Neither seems plausible to me. I have a grim, scientific assessment of it. I just feel, what you see is what you get.

Esta metafísica materialista de Allen não é novidade. João Pereira Coutinho já havia feito um belíssimo ensaio a respeito em seu “Woody Allen: crimes sem castigos?” para a Dicta 5. O que salta aos olhos em “You Will Meet a Tall Dark Stranger” é a nonchalance plena de ironia e sarcasmo com que o diretor lida com a vida de seus personagens. Mas não o devemos culpar por isso: trata-se da saída digna para a emboscada que este tipo especial de niilismo prevê. Machado de Assis no seu “Memórias Póstumas” já havia prenunciado o dilema quando descreve a alucinação de Brás Cubas, no capítulo VII, “o Delírio”, dizendo do mundo como:

…as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

Machado tinha uma sensibilidade fina para o caso, e não à toa coloca tal percepção no delírio de seu protagonista: algo ali lhe parece coisa de alucinado. Para Woody Allen, no entanto, o problema não está na alucinação. Ao contrário. Os alucinados, os idiotas, ao menos riem – e rindo da própria miséria podem encontrar a felicidade possível desta selva selvaggia. O pior é para os outros. Para estes, a única vitória possível parece ser um punhado de batatas e nada mais.

por Leandro Oliveira

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Publicado às 12 de dezembro de 2010 por em cinema, Crítica e marcado , , , , .

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